O Báb

UM BREVE RESUMO SOBRE A VIDA E ENSINAMENTOS DO BÁB

Em meados do séc. XIX várias correntes de pensamento milenarista tornaram-se populares entre as sociedades ocidentais e orientais. Entre os cristãos aguardava-se o iminente regresso de Cristo; e entre os muçulmanos sustentava-se que as profecias das escrituras se cumpririam em breve. Esta derradeira epifania seria o prometido "juízo final" a que se seguiria uma nova era de espiritualidade, tranquilidade e bem-estar dos povos.

Os anos passaram e o fervor messiânico de diferentes escolas religiosas diminuiu. Aparentemente nada aconteceu.

Foi no meio dessas expectativas messiânicas, na Pérsia do séc. XIX, que surgiu a religião Babí. Inicialmente encarada como uma reformulação do Islão, a religião Babí teve como fundador um jovem comerciante da cidade de Shiraz, chamado Siyyid 'Alí-Muhammad. Para a história ficaria conhecido por Báb, um título que significa "Porta" ou "Portão". No dia 23 de Maio de 1844, o Báb revelou a Sua Missão ao seu primeiro discípulo: Ele era o Portador de uma Revelação Divina destinada a transformar a espécie humana. Além disso, proclamava também o surgimento iminente do Prometido de todas as Religiões, cuja missão seria inaugurar uma nova era de justiça e paz prometida no Judaísmo, no Cristianismo, no Islão e em todas as outras religiões mundiais.

"Ó povos da Terra!", declarou o Báb, "Dai ouvidos à Voz Sagrada de Deus! Em verdade, a resplandecente Luz de Deus apareceu no meio de vós, investida deste Livro infalível, para que sejais guiados com correctamente aos caminhos da paz." Numa sociedade em colapso moral de larga escala, a declaração do Báb de que a renovação espiritual e o progresso social estavam baseados no "amor e compaixão" ao invés da "força e coerção" despertou esperança e entusiasmo entre todas as classes sociais. Os Seus discípulos espalharam-se pelo país, e atraíram milhares de seguidores para Sua Causa.

É possível estabelecer uma analogia entre o Báb e João Baptista, o precursor de Jesus Cristo. O Báb anunciou o surgimento de Bahá’u’lláh, tal como João Baptista anunciou o aparecimento de Jesus Cristo. Os Seus escritos referem-se a esse Prometido como "Aquele que Deus tornará Manifesto". Num dos seus textos, o Báb alude de forma muito clara à identidade desse Prometido: "Bem-aventurado aquele que fixa o olhar na Ordem de Bahá'u'lláh e dá graças ao seu Senhor. Pois Ele seguramente manifestar-Se-á." E também: "Quando o Sol de Bahá resplandecer, fulgurante, sobre o horizonte da eternidade, incumbe-vos apresentardes-vos perante o Seu Trono". Os primeiros sinais do aparecimento desse Messias prometido pelo Báb surgiram em 1848, num encontro de Babís, onde um dos Seus mais proeminentes apoiantes, Husayn-'Alí assumiu o título de "Bahá" (em português significa "glória" ou "esplendor"); esse título seria posteriormente confirmado pelo próprio Báb. Husayn-'Alí ficaria conhecido na história como Bahá’u’lláh.

O Báb também fundou uma religião conhecida com Fé Babí. Com as suas próprias escrituras, leis e ensinamentos, foi chamando a si um conjunto de seguidores cuja coragem e desprendimento deixariam a sua marca na história da Pérsia do séc. XIX. O Seu apelo a uma regeneração espiritual e moral da sociedade, e a Sua insistência na elevação da condição da mulher e dos destituídos, o Báb assumiu um estatuto que nos faz lembrar os Profetas do passado. É importante ter presente que a mentalidade das pessoas que ouviram a mensagem do Báb tinha como referências um mundo que pouco mudara desde os tempos medievais. Além da proclamação de uma renovação espiritual, a Sua promoção da educação e das ciências era perfeitamente revolucionária para a sociedade persa. Assim, ao proclamar uma religião inteiramente nova, o Báb levou os Seus seguidores a libertarem-me do paradigma referencial islâmico e mobilizou-os na preparação para a chegada de Bahá'u'lláh.

Mulla Husayn, o primeiro discípulo da religião Babí, descreveu o efeito que as palavras do Báb tiveram sobre si, após o seu primeiro encontro: "Senti-me possuído de uma tal coragem e poder, que, fosse o mundo, e todos os seus povos e potentados, erguer-se contra mim, eu, sozinho e intrépido, resistiria ao seu ataque furioso. O universo parecia não mais que um punhado de pó nas minhas mãos. Eu parecia ser a Voz de Gabriel em pessoa, clamando a toda a humanidade: «Despertai, pois vede! a Luz matinal rompeu.»". Outro discípulo escreveu: "A melodia das Suas palavras, o fluxo rítmico dos versículos que jorravam copiosamente dos Seus lábios arrebatavam-nos os ouvidos e penetravam-nos a própria alma. A montanha e o vale estremeciam com a majestade de Sua voz. O coração vibrava-nos no recôndito com o apelo do Seu discurso."



Tabriz, a cidade onde o Báb foi executado em 8 de Julho de 1850
A coragem do Báb e dos Seus seguidores – que defendiam a construção de uma nova sociedade – abalou a tranquilidade das instituições da sociedade persa. O clero xiita e as autoridades governamentais não tardaram em classificar a nova religião como herética e subversiva da ordem existente. Como consequência, o Báb esteve encarcerado durante três anos numa zona inóspita do país, enquanto vários dos Seus seguidores pereciam em massacres um pouco por todo o país. Por fim, em 1850, as autoridades religiosas e civis condenaram o Báb à morte.

A pena deveria ser executada por um pelotão de fuzilamento numa praça pública da cidade de Tabriz. Perante milhares de pessoas que queriam testemunhar aquele momento, um regimento de 750 soldados arménios apontou, e, após ordem de comando, disparou. Quando o fumo e a poeira provocados pelos disparos se dissiparam, a multidão constatou que o Báb tinha desaparecido. Encontra-Lo-iam algumas horas mais tarde, na Sua cela, falando com um dos Seus discípulos. De novo levado para o praça, foi mais uma vez amarrado para ser fuzilado. Desta vez, um segundo pelotão de fuzilamento (o pelotão arménio recusou-se disparar pela segunda vez) recebeu ordens para disparar. Desta vez, o Báb e um companheiro sucumbiram. Horas mais tarde os seus corpos seriam lançados numa fossa da cidade e nessa mesma noite foram recolhidos por alguns crentes babis.

Só em 1909, os corpos do Báb e do Seu companheiro de martírio foram depositados num Túmulo próprio no Morte Carmelo, na Terra Santa. Esse santuário é hoje local de peregrinação de bahá’ís de todo o mundo.

Santuário do Báb no Monte Carmelo,
local onde repousam os restos mortais do Báb e Seu companheiro
A tragédia do Báb e a extraordinária coragem demonstrada pelos babís perante os ataques brutais a que eram sujeitos foi registrada por vários observadores ocidentais. Intelectuais europeus como Ernest Renan, Leon Tolstoy, Sarah Bernhardt e o Conde de Gobineau foram profundamente tocados por esse drama espiritual que se desenrolava no que era considerada um país de trevas. A nobreza da vida e dos ensinamentos do Báb e o heroísmo dos Seus seguidores tornaram-se assuntos frequentes nas conversas dos salões da Europa. Em Portugal, o Eça de Queirós fez referência ao Báb no livro “A Correspondência de Fradique Mendes”, descrevendo-o como "...um Messias, um Cristo" (neste livro a personagem Fradique Mendes torna-se apoiante do Babismo durante algum tempo).

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OUTRAS LEITURAS SOBRE O BÁB:
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O Nascimento do Báb
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O Primeiro Acto
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A primeira notícia no The Times
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A Conferência de Badasht
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Na cidade de Abbas, o Grande
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Anis, o companheiro dos últimos dias
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O Martírio do Báb
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A reacção britânica ao martírio do Báb
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A reacção russa ao Babismo
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Fradique Mendes e o Bábismo