domingo, 24 de setembro de 2017

A minha amiga que tentou suicidar-se

Por David Langness.


Tive uma amiga no ensino secundário, viva e magnética, com cabelo ruivo flamejante. Um dia ela parecia que estava um pouco triste e desanimada. Quando vinha da escola e regressava a casa, parei na casa dela e perguntei-lhe: "Tu estás bem?"

E enquanto ficámos frente a frente, à porta da casa, ela não resistiu e começou a soluçar. As lágrimas caíam como dois rios sobre a sua face. Aproximei-me e abracei-a; ela chorou ainda mais e todo o seu corpo se afundou um choro convulsivo.

Após cerca de dez minutos, ela mostrou-me um enorme frasco de comprimidos que tinha na mão. "Estava quase a tomar isto tudo", disse ela. E acrescentou que tinha feito uma promessa silenciosa a si própria: que, se durante todo aquele dia, ninguém lhe perguntasse como é que ela estava, ela suicidar-se-ia.

Aconteceu que o seu namorado tinha terminado a relação com ela no dia anterior, e, na mesma noite, o seu pai anunciou que ele e a sua mãe se iam divorciar. A minha amiga sentiu que a sua vida esta a desabar e que nunca mais voltaria a ser feliz. Por isso, decidiu acabar com a sua vida, a menos que alguém interferisse. Por sorte, e sem saber disso, eu interferi nos seus planos.

Sentámo-nos na sala de estar e conversámos. Eu ainda não era Bahá’í, mas disse-lhe que os ensinamentos Bahá’ís, tal como os ensinamentos de todas as grandes religiões, proíbem o suicídio. A vida é considerada como uma oferta do Criador:
Deus criou o homem sublime e nobre, tornou-o um factor dominante na criação. Especializou o homem com favores supremos, conferiu-lhe mente, percepção, memória, abstracção e os poderes dos sentidos. Estas dádivas de Deus para o homem tinham como objectivo fazer dele a manifestação das virtudes divinas, uma luz radiante no mundo da criação, uma fonte de vida e um agente construtivo nos campos infinitos da existência. Devemos, pois, destruir este grande edifício e as suas próprias fundações, derrubar este templo de Deus, o corpo social ou político? (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 352)
Todos os anos, em todo o mundo, há quase um milhão de pessoas que se suicida - e isso sem contar com os excessos de drogas ou álcool, muitas vezes rotulados como "morte acidental", mas que são realmente intencionais. Imagine o que essas almas abandonadas poderiam ter dado à humanidade e ao mundo se tivessem decidido viver. Imagine os danos permanentes que as suas mortes causam nos seus entes queridos. Imagine, também, o que poderia ter acontecido se elas tivessem decidido superar pacientemente os seus testes e provações, e reconhecer que os caprichos da vida significam que nossos problemas acabam por passar:
Não deveis ferir-vos ou suicidar-vos... Não é permitido... Se alguém, em algum momento, encontrar situações difíceis e intricadas, deve dizer a si próprio: "Isto em breve passará." (‘Abdu'l-Bahá, Star of the West, Volume 7, p. 280)
A minha amiga, que tinha 15 anos naquela altura, não pôs termo à sua vida. Cresceu, teve um casamento feliz, foi mãe de três filhos maravilhosos, que hoje são adultos e têm os seus próprios filhos. Ela também se tornou uma artista de sucesso, cujas belas pinturas valorizaram milhões de vidas.

No entanto, os ensinamentos Bahá’ís não condenam, nem castigam, aqueles que põem termo às suas próprias vidas. Apesar das leis Bahá’ís proibirem o suicídio, os Bahá’ís entendem que algumas pessoas simplesmente não conseguem enfrentar outro momento neste plano difícil da nossa existência. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís consideram o suicídio como triste e deplorável - mas também reconhecem o ímpeto subjacente que todas as pessoas enfrentam e vêem-no com piedade e compaixão. Essa compreensão amável, exemplificada nesta carta de ‘Abdu’l-Bahá a uma mulher cujo marido acabara com a sua própria vida, assegura-nos que as condições de depressão grave, angústia e tristeza que levam ao suicídio serão aliviadas no próximo mundo:
Ó buscadora do Reino! A tua carta foi recebida. Escreveste sobre a grave calamidade que te aconteceu - a morte do teu respeitável marido. Esse homem honrado foi sujeito a tamanho stresse e tensão neste mundo que o seu maior desejo era libertar-se dele. Assim é esta morada mortal: um armazém de aflições e sofrimento. É a ignorância que o liga ao homem, pois nenhum conforto se pode assegurar a qualquer alma neste mundo, desde o monarca até o mais humilde dos plebeus. Se, numa ocasião esta vida oferece um cálice doce a um homem, seguir-se-ão cem amargos; essa é a condição deste mundo.

O homem sábio, portanto, não se liga a esta vida mortal e não depende dela; em alguns momentos, até, ele desejará ansiosamente a morte, para que, com isso, se possa libertar dessas dores e aflições. Assim, vê-se que alguns, sob extrema pressão da angústia, se suicidaram.
Quanto ao teu marido, tem a certeza: ele será imerso no oceano de perdão e da indulgência e tornar-se-á o receptor da graça e do favor. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, nº 170)
Hoje, 10 de Setembro, é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. A Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio tem uma série de sugestões no seu site para ajudar quem pensa em suicidar-se. Também descreve os casos de muitas pessoas suicidas que não queriam morrer, mas preferiram que alguém interferisse e as parasse - que esperavam e procuravam activamente alguém que sentisse o seu desespero e lhes perguntasse se elas estavam bem.

Às vezes, as pessoas suicidas dizem que fizeram uma promessa a si próprias: que se alguém lhes perguntasse, contariam tudo e permitiriam que interferissem, tal como aconteceu com a minha amiga ruiva.

A próxima vez que um amigo, um membro da família ou algum estranho parecer estar em baixo ou deprimido, você vai perguntar-lhe?

Todos sabemos que a vida é preciosa e, por vezes, precária. Durante algum momento particular de grande sofrimento, depressão ou tristeza, quase toda a gente pensa que a morte pode ser mais fácil do que a vida. Então, perder um minuto para falar com alguém e perguntar-lhes se está bem - seja um estranho, um amigo ou um familiar próximo - pode mudar o rumo daquela vida, e da sua também.

-----------------------------
Texto original: My Friend Who Tried to Kill Herself (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O que eu aprendi com o furação Irma

Por Rebecca Sherry Eshraghi.


Vivo na Flórida, exactamente no trajecto de destruição do furacão Irma. Por sorte, a minha família e eu saímos a tempo.

O Irma causou uma tremenda devastação na Flórida e nas ilhas das Caraíbas, por isso sinto-me abençoada por ter conseguido sair antes que a tempestade chegasse, e porque a nossa casa sofreu estragos mínimos. Claro que fiquei extremamente preocupada com todos aqueles que não puderam partir.

Vocês aperceberam-se? Aparentemente está a ocorrer um aumento de desastres naturais em todo o mundo. Há quem defenda que sempre foi assim, e há outros que dizem que aumentaram em frequência e intensidade. Eu costumo concordar com estes últimos.

Por isso, pergunto-me a mim e aos outros: porquê? Quem têm uma visão científica geralmente acredita que é devido às alterações climáticas, e quem tem uma visão mais religiosa diz que é profecia e ira de Deus. E há ainda quem diga, simplesmente, que é assim que a natureza funciona. Como Bahá’í, eu sou religiosa - mas, como todos os Bahá’ís, também acredito fortemente na ciência e tento encontrar as ligações entre os dois em relação aos desastres naturais.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a natureza é governada por uma lei universal, e que a religião e a ciência concordam nas suas verdades essenciais:
... a natureza está sujeita a uma sólida organização, a leis invioláveis, a uma ordem impecável e a uma concepção perfeita, das quais nunca se afasta. Até certo ponto, é verdade que se a contemplasses com olhos da percepção e do discernimento, observarias que todas as coisas - desde o menor átomo invisível até aos maiores globos do mundo da existência, tais como o sol ou outras grandes estrelas e corpos luminosos - estão perfeitamente organizadas, no que diz respeito à sua ordem, à sua composição, à sua forma exterior ou ao seu movimento, e que todas estão sujeitas a uma lei universal da qual nunca se afastarão. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 3)
Assim, a natureza tem uma ordem - mas não tem consciência, nem livre vontade - e reage à manipulação de forças externas. Nós, os seres humanos, somos parte da natureza; mas porque temos consciência, intelecto e espírito, acreditamos que estamos acima da natureza, principalmente porque conseguimos influenciar a natureza em grande parte para nosso favor.

Há vários anos que tenho estado a estudar microbiota com fascínio. A microbiota humana é o nosso ecossistema interno, especialmente no nosso intestino, o sistema digestivo. As evidências científicas mostram que os biliões de micróbios que residem nos nossos corpos podem influenciar a nossa saúde intestinal, afectando os nossos riscos de obesidade, diabetes, saúde do cólon, sistema imunitário, causando cancro e outras coisas. Manipular esse mundo microbiano invisível dentro de nós afecta muitas partes do nosso corpo e o corpo como um todo - até pode afectar a nossa função cerebral. O facto de pequenos micróbios invisíveis que residem dentro de nós poderem ser tão poderosos recorda-me o que ‘Abdu’l-Bahá explicou, de que existe uma ordem desde o micromundo dos átomos até ao macromundo dos planetas.

Se retirarmos um electrão do átomo ou adicionarmos um protão, criamos um novo átomo. Essa manipulação também se aplica ao macromundo.

Se temos uma poluição maciça numa parte do mundo, exploração excessiva de petróleo noutra parte do mundo, consumismo e materialismo extremo que causa lixo supérfluo, como equipamentos electrónicos usados, resíduos nucleares e outras coisas, então estamos a manipular e a devastar o nosso meio ambiente.

Quando visitei a Alemanha no verão passado, pude observar o esforço que a Alemanha faz para proteger o meio ambiente. Não sabia se devia ficar feliz ou triste, porque sabia que noutras partes do mundo não se faz 1% do esforço que a Alemanha faz na protecção do meio ambiente e senti que não era justo.

Agora, a questão: "O que é que a religião e a profecia têm a ver com isso?" Bem, enquanto há quem pense que os chamados " desastres naturais" são a ira de Deus, eu diria que são uma consequência de ignorar os mandamentos de Deus.

A Fé Bahá’í afirma que a ciência e a religião devem andar de mãos dadas. Apesar de termos feito um grande progresso científico no mundo e termos construído civilizações tecnologicamente avançadas, se a ciência for conduzida sem valores religiosos e morais, torna-se mais prejudicial do que útil. A ciência precisa ser conduzida sem o objectivo da ganância, com a mais alta integridade em relação aos resultados obtidos, para responder a todos e não apenas a alguns, com respeito pela natureza, e com a percepção de que somos parte da natureza e precisamos trabalhar com ela, e não contra ela.

Os Bahá’ís reconhecem que, em última análise, o mundo tem que se unir como um todo para resolver os graves problemas globais. Assim como os membros de um corpo não podem ser separados, o mundo não deve ser considerado segregado - porque o que acontece numa parte do mundo afectará as outras partes. Se não respondermos a este apelo para nos unirmos num esforço humano colectivo, Bahá’u’lláh adverte-nos:
Ó povos do mundo! Saibam, em verdade, que uma calamidade imprevista vos persegue, e esse castigo severo vos aguarda. Não pensem que os actos que cometeram foram apagados da Minha vista. (SEB, CIV)

-----------------------------
Texto original: What Hurricane Irma Taught Me (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A soberania terrena...


Foto de 1910, tirada em Londres por ocasião do funeral de Eduardo VII.
Em pé: Reis da Noruega, Bulgária, Portugal, o Kaiser da Alemanha, os Reis da Grécia e da Bélgica.
Sentados: Reis de Espanha, Grã-Bretanha e Dinamarca.

sábado, 16 de setembro de 2017

O fosso crescente entre a Teologia e a Moralidade

Por Behrooz Sabet.


Ao longo da história humana, discutimos sobre a religião. Os ensinamentos Bahá’ís dizem que esse tipo de discórdia deve parar.

Bahá’u’lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá’í - proclama que os diferentes entendimentos sobre o estatuto de um profeta são permitidos, desde que não se tornem a causa de desavenças e discórdia entre as pessoas que os defendem.

Os Bahá’ís acreditam que as crenças teológicas não devem ser motivo de querelas e conflitos entre a população. Bahá’u’lláh identifica inequivocamente a natureza e propósito da religião nestas palavras:
Ó filhos dos homens! O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e a Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana, o fomentar do espírito de amor e camaradagem entre os homens. Não padeçam tornando-a uma fonte de dissensão e discórdia, de ódio e inimizade. É este o Caminho recto, o alicerce fixo e imóvel. (SEB, CX)
Além disso, as escrituras Bahá'ís afirmam que a existência de discórdia social é um sinal claro de que a religião se desligou da sua base espiritual e que, metaforicamente, Deus ocultou o Seu rosto das pessoas que usam a religião para promover a hostilidade e a intolerância entre a humanidade. Consequentemente, a sociedade, que é a arena de actuação da religião, perde o seu sentido de transcendência e degenera numa grande escala de hipocrisia nas mãos dos seus eclesiásticos.

Poder-se-ia dizer que Bahá’u’lláh, com o Seu mandamento de não lutar por motivos religiosos, avança uma ideia crítica - a ideia de que os conflitos teológicos entre o clero não resultam necessariamente numa ética prática da boa vontade. Sabendo como no passado, as diferenças teológicas causaram conflitos e derramamento de sangue, Bahá’u’lláh recusa-Se a promover qualquer fundamentalismo teológico. Em vez disso, Ele apresenta uma cultura de paz baseada em princípios morais que nos orientam sobre como lidar com outras pessoas.

A religião é amparada espiritualmente pela sua ligação a Deus, a Realidade Última. No entanto, ela opera no mundo, entre as pessoas e nas suas relações sociais. Quando a vontade de Deus é revelada ao mundo, encontra expressões relativas e finitas na mente das pessoas. A revelação, portanto, torna-se uma experiência individual, assim como uma realidade social.

Por exemplo, na noite de 22 de Maio de 1844, quando o Báb Se revelou a Mulla Husayn - a primeira pessoa a receber e abraçar a causa Bábi - essa revelação atingiu Mulla Husayn como um raio que entorpeceu as suas faculdades e, em última análise, deu-lhe força e transfigurou-o. No entanto, na sua totalidade, essa experiência permaneceu individual. Naquela noite, Mulla Husayn não alcançou o total conhecimento de Deus, mas teve uma experiência espiritual pessoal - um encontro que o obrigou a interagir com a sociedade e a envolver-se num processo de mudança social revolucionária.

O encontro da humanidade com a palavra de Deus funciona da mesma maneira. Podemos estabelecer uma ligação com a realidade espiritual última, mas o verdadeiro desafio do progresso espiritual significa traduzir essa ligação na dinâmica da civilização e do progresso social. Bahá’u’lláh ensina-nos que a força de sustentação da evolução social é a moralidade, o centro em torno do qual se desenvolvem os círculos concêntricos da realidade social. Neste contexto, o conceito de espiritualidade está entrelaçado com a responsabilidade do individuo levar avante uma civilização em constante progresso.

Para os Bahá’ís, até o mais esotérico conceito de salvação pessoal se desenvolve no contexto dos contributos individuais para uma civilização mundial. O conceito de virtudes espirituais interiores - como a coragem, a honra, a veracidade e a lealdade - representa a fusão entre as acções individuais e a dinâmica da humanidade como um todo. Essas virtudes, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, encaminham-nos para uma civilização global, na medida em que promovem o princípio fundamental da unicidade da humanidade.

Assim, os ensinamentos Bahá’ís, como todas as outras religiões, enfatizam a moralidade, mas em dimensões muito maiores do que apenas as pessoais. Os ensinamentos Bahá’ís constituem um quadro conceptual que relaciona a moral e a religião com os processos orgânicos da expansão da civilização.

Por exemplo, desde o início da história da humanidade, as pessoas organizaram-se em unidades familiares, posteriormente conseguiu-se a solidariedade tribal, depois evoluiu-se para a constituição das cidades-estado, para a construção de nações independentes e soberanas, e agora, para o extraordinário empreendimento de construção um mundo unido e pacífico. Neste vasto processo histórico, podemos detectar várias expressões de ordem moral, que revelam a luta moral da humanidade para superar divisão e conflito, e conseguir a verdadeira universalidade.

Bahá’u’lláh traçou um paralelismo estrutural entre o ritmo evolutivo da ordem moral e a era da maturidade colectiva da raça humana - a emancipação da humanidade à medida que alcança o seu destino final de se tornar exteriormente e interiormente unida.

Este nível de unidade global exemplifica a moralidade autêntica. No entanto, historicamente, na ausência de moral autêntica, falsas justificações têm sido usadas para alcançar o poder ou para tornar a decadência apetecível - e essa falsa moralidade muitas vezes tornou-se uma crença cultural partilhada ou a filosofia política de várias sociedades.

Bahá’u’lláh apresentou o conceito de moralidade autêntica como um modelo para a unidade - e libertar a civilização emergente do alheamento e do afastamento. Este ensinamento Bahá’í elimina qualquer base teológica para a justificação moral do conflito.

Essa autenticidade moral dá à religião uma unidade de propósito ao invés de desavença doutrinária - a própria causa de desunião e divisão na religião. Ao longo da história, os clérigos alegaram ter o exclusivo da compreensão do conhecimento divino e, portanto, a legitimidade moral para governar. Bahá’u’lláh considerou essa reivindicação como potencialmente opressiva, provocando posteriormente a violência sectária. Ao longo do Seu ministério, Bahá’u’lláh anulou a prática xiita do taqlid, ou imitação de clérigos, e revogou a guerra santa. Aboliu a instituição do sacerdócio e encorajou a investigação independente da verdade. Em vez do taqlid, Bahá’u’lláh enfatizou o poder da auto-reflexão e do consenso racional.

 Actualmente, a humanidade está envolvida numa disputa entre a consciência da ética global e uma catástrofe geopolítica; mas a ética global não pode sobreviver apenas com boas intenções. As instituições legítimas - como as criadas para a segurança colectiva e a aplicação do direito internacional - são primordiais para contrariar os interesses particulares e a selvajaria brutal que se escondem sob o verniz da nossa civilização. Ao mesmo tempo, o ressurgimento de ortodoxias fanáticas que promovem a intolerância religiosa e a tirania ameaçam directamente a segurança internacional e a paz da raça humana. E porque este fanatismo religioso está actualmente em ascensão, alimentando o conflito global, o mundo está numa encruzilhada: o fim da fé religiosa ou um apelo a um novo modelo de fé e ética global?

------------------------------------------------------------
Texto original: The Widening Breach Between Theology and Morality (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Behrooz Sabet é professor universitário, doutorado pela State University de Nova Iorque, em Buffalo. Durante mais de 20 anos fez estudos e investigações sobre os cruzamentos entre religião, ciência e cultura no Médio Oriente. É um estudioso de religião, movimentos e pensamento político contemporâneo no Irão. Traduziu e escreveu muito sobre religião, ética, educação, filosofia e temas sociais.

sábado, 9 de setembro de 2017

Podemos caçar e comer animais?

Por Derrick Stone.


Ser bondoso para com os animais significa não os comer?

Caçar animais pela carne tem uma longa tradição na história humana. No entanto, em muitas culturas, a caça tornou-se uma história do passado, à medida que a agricultura moderna foi afastando as famílias do processamento da carne, e as pessoas ficaram menos habituadas a abater e desmanchar animais. Consequentemente, os caçadores desenvolveram uma dupla imagem: tanto parecem figuras históricas nostálgicas como atormentadores de animais.

Os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos para sermos bondosos para com os animais:
Não sobrecarregueis um animal com mais do que ele pode suportar. Em verdade, proibimos esse tratamento através da mais firme interdição registada no Livro. Sede as personificações da justiça e da equidade entre toda a criação. (Bahá’u’lláh, The Most Holy Book, ¶187)
Isto cria um sério dilema: podemos ser bondosos com os animais e, ainda assim, comê-los? Em várias cartas, 'Abdu'l-Bahá indicou que, se considerarmos o nosso aspecto físico, temos partes do corpo de herbívoros (não temos garras, por exemplo), e que a carne um dia desaparecerá das nossas dietas:
Qual será a alimentação do futuro? Frutas e grãos. Virá o tempo em que a carne já não será consumida. A ciência médica está apenas na sua infância, mas mostrou que a nossa dieta natural é aquela que cresce a partir do solo. As pessoas desenvolver-se-ão gradualmente até a condição deste alimento natural. (‘Abdu’l-Bahá, Bahá’í Scriptures, p. 453)
Será que isso implica que os Bahá’ís devem abandonar a prática da caça? Devem todos os Bahá’ís tornar-se vegetarianos? Talvez não. Bahá’u’lláh também estabeleceu orientação para os Bahá’ís em relação à caça:
Ao caçar com a ajuda de animais ou aves de rapina, invocai o Nome de Deus quando os enviares em perseguição da sua presa; pois o que quer que capturem ser-vos-á lícito, mesmo que a encontreis morta. Ele, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Informado de Tudo. No entanto, acautelai-vos para não caçar em excesso. Trilhai o caminho da justiça e da equidade em todas as coisas. (The Most Holy Book, ¶60.)
Em resposta a uma pergunta sobre "o consumo de animais inocentes", ‘Abdu’l-Bahá escreveu:
Não te surpreendas com isso. Reflecte sobre as realidades interiores do universo, as sabedorias ocultas envolvidas, os enigmas, as inter-relações e as leis que governam tudo. Pois cada parte do universo está ligada a todas as outras por laços que são muito poderosos e não admitem qualquer desequilíbrio ou enfraquecimento. No reino físico da criação, todas as coisas se alimentam e são alimento: a planta absorve o mineral, o animal morde e engole a planta, o homem alimenta-se do animal e o mineral devora o corpo do homem. Os corpos físicos passam uma barreira após outra, de uma vida para outra, e todas as coisas estão sujeitas a transformação e mudança, salvo unicamente a essência da própria existência - pois esta é constante e imutável e nela baseia-se a vida de todas as espécies e raças, de toda a realidade contingente em toda a criação. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #137)
Isso significa que os Bahá’ís devem caçar, ou que os Bahá’ís devem comer carne com prazer? (Este é um caso em que os ensinamentos Bahá’ís, à primeira vista, podem parecer contraditórios.) Numa palavra: não. Esses ensinamentos não são contraditórios na perspectiva dos princípios espirituais em causa. O princípio principal é: as pessoas devem ser saudáveis! Precisamos de uma dieta variada que nos forneça todos os componentes necessários ao corpo humano, incluindo vitaminas, minerais, proteínas, fibras e gorduras.

As pessoas em países materialmente prósperos podem ter acesso a uma grande variedade de alimentos que não contêm carne e que podem constituir uma dieta bem equilibrada; mas aqueles que vivem noutros países não podem. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a toda a raça humana, deixam bastante espaço para todos.

Então, sim, devemos praticar a bondade para com todas as coisas, incluindo animais. À medida que aprendemos mais sobre nutrição e agricultura eficiente, os humanos não precisarão de usar animais para alimentação nas quantidades que precisam hoje. Além disso, será mais barato produzir grandes quantidades de vegetais e grãos; um factor crítico a considerar se queremos evitar que a população mundial em rápido crescimento sofra fome.

Isto ilustra o poder crítico do pensamento espiritual ao considerar duas perspectivas de um problema que podem parecer contraditórias. Este entendimento fundamental dos ensinamentos Bahá'ís pode ajudar-nos a navegar no mundo dividido de hoje e evitar confrontos destrutivos que surgem em questões em que dois lados não encontram um espaço comum – incluindo a alimentação com carne. No entanto, com um entendimento espiritual elevado, uma perspectiva global que inclui todas as culturas e um foco na saúde humana, podemos resolver o conflito.

-----------------------------
Texto original: Should We Hunt and Eat Animals? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Derrick Stone é Bahá’í, marido, pai e dono de um cão. Trabalha na Universidade da Virgínia, onde é Director de Desenvolvimento de Software para o Sistema de Saúde, e professor do Departamento de Ciência da Computação.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Índia: Primeiro-Ministro e novo Presidente homenageiam Bahá'u'lláh

O Primeiro-ministro Modi (à esquerda) e o Presidente Kovind.
Após a homenagem do Presidente da Índia no passado mês de Abril, agora foram o primeiro-ministro Narendra Modi e o recém-eleito presidente, Ram Nath Kovind, que divulgaram mensagens sobre o bicentenário do nascimento de Bahá’u’lláh.

"A Fé Bahá’í dá ao mundo uma visão de fraternidade universal", escreveu o primeiro-ministro Modi na sua carta à comunidade Bahá’í da Índia. "Transmite-nos o amor e o respeito, e pretendem tornar o mundo um lugar belo que celebra a harmonia e a paz"

Falando sobre a Comunidade Bahá'í na Índia, Modi escreveu: "Desde a revelação do Profeta Bahá’u’lláh, a Fé Bahá’í encontrou aceitação sincera na Índia, onde, desde então, uma das suas comunidades mais dinâmicas floresceu". E acrescentou ainda que instituições como o Templo Bahá’í - conhecido como o Templo do Lótus - "simbolizam" o "espírito de comunhão e fraternidade universais".

O presidente Ram Nath Kovind, que tomou posse no final de Julho deste ano, escreveu a sua própria mensagem aos Bahá’ís, declarando: "o bem-estar da Índia depende do compromisso cada vez maior dos seus cidadãos com o princípio da unidade na diversidade... Os esforços da comunidade Bahá’í oferecem esperança de que o objectivo da unidade possa ser alcançado".

Outras entidades oficiais da Índia - incluindo o ex-presidente, o vice-presidente, altos membros do governo nacional e o ministro-chefe de um dos estados da Índia e vários funcionários locais - também divulgaram declarações em homenagem a propósito do bicentenário.





---------------------
FONTE: India's Prime Minister and new President pay tribute to Baha'u'llah (BWNS)

sábado, 2 de setembro de 2017

A verdadeira Religião nunca apela à guerra

Por David Langness.


Uma amiga minha perguntou-me uma vez: "Como é que distingues uma religião verdadeira de uma falsa?" Tive que pensar um pouco na resposta.

E depois de pensar durante alguns dias, respondi-lhe: "As verdadeiras religiões pedem sempre a paz. Se alguém quer guerra – seja um indivíduo, uma organização, ou uma nação – então isso é uma falsa religião. Deus não quer a guerra".

A minha amiga adorou esta definição, mas não conseguia acreditar nela. Expliquei-lhe que era uma explicação dos ensinamentos Bahá'ís:
... a guerra é destruição, enquanto a paz universal é a construção; A guerra é a morte enquanto a paz é a vida; a guerra é a rapacidade e a sede de sangue, enquanto a paz é a beneficência e a humanidade; a guerra é uma pertença do mundo da natureza, enquanto a paz é a base da religião de Deus; a guerra são trevas sobre trevas, enquanto a paz é luz celestial; a guerra é o destruidor do edifício da humanidade, enquanto a paz é a vida eterna do mundo da humanidade; a guerra é como um lobo devorador, enquanto a paz é como os anjos do céu; a guerra é a luta pela existência, enquanto a paz é a ajuda mútua e a cooperação entre os povos do mundo e o motivo do bom-agrado do Verdadeiro no reino celestial. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #227)
"A paz", escreveu ‘Abdu’l-Bahá, é "a base da religião de Deus". Apesar de sabermos que os seguidores das religiões do passado nem sempre agiram pacificamente, também sabemos que os ensinamentos originais da maioria das grandes religiões do mundo aconselharam os fiéis a dar a outra face; para dominar os nossos instintos violentos; para estar em paz com todas as pessoas; para ser, e fazer, o bem no mundo.

Os textos de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá falam abertamente sobre a paz universal e o caminho a seguir para a alcançar. Na verdade, os ensinamentos Bahá’ís dizem claramente que Bahá’u’lláh trouxe uma nova mensagem de paz para o mundo, enfatizando a não-violência, a desmilitarização e um sistema global de governação - tudo em nome do estabelecimento de um sistema que elimine a guerra de forma universal e permanente:
O Sol da Verdade surgiu no horizonte deste mundo e lançou os seus raios de orientação. A graça eterna é ininterrupta, e um fruto dessa graça eterna é a paz universal. Tende a certeza que, nesta era do espírito, o Reino da Paz levantará o seu tabernáculo nos cumes do mundo, e os mandamentos do Príncipe da Paz dominarão plenamente as artérias e os nervos de todos os povos, para atrair para a Sua sombra protectora todas as nações na terra. (Idem, #201)
Quem procurar nas escrituras de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá, perceberá que eles deram muita atenção à paz e à sua realização. Em Outubro de 1914, por exemplo, após o início da Primeira Guerra Mundial, ‘Abdu’l-Bahá escreveu uma poderosa carta anti-guerra para uma Bahá’í britânica chamado Beatrice Irwin, de Londres. Actriz, inventora, autora, viajante e conhecida poetisa, Irwin escreveu pela primeira vez a ‘Abdu’l-Bahá sobre a queda da Europa nos campos de batalha antes do início da guerra nos Balcãs.

‘Abdu’l-Bahá iniciou a sua famosa resposta a Beatrice Irwin com as seguintes palavras:
Ó filha amada! A tua carta foi recebida e por tua causa escrevi esta Mensagem. Este artigo, em resposta à tua questão, é muito importante. Faz o maior esforço para a sua publicação. (Star of the West, Volume 4, p. 243)
Depois parece que ‘Abdu’l-Bahá escreveu a sua carta para Beatrice Irwin como mais do que uma simples carta - pediu-lhe para fazer " o maior esforço" para encontrar quem publicasse o seu importante artigo.

O Seu texto começa assim, com alguma história pessoal e um grave aviso:
Após a proclamação do regime constitucional no turco em 1908, pelos membros do Comissão para a União e Progresso, este prisioneiro de quarenta anos [‘Abdu’l-Bahá refere-se a si próprio], andou e viajou durante três anos - de 1910 a 1913 - pelos países da Europa e pelo vasto continente da América. Não obstante a idade avançada com as suas consequências naturais, com uma voz sonora, fiz intervenções detalhadas perante grandes convenções e em igrejas históricas. Enumerei todos aqueles princípios contidos nas Epístolas e Ensinamentos de Bahá’u’lláh sobre Guerra e Paz.

Há cerca de cinquenta anos atrás, Sua Santidade Bahá’u’lláh proclamou certos Ensinamentos e fez ouvir o Cântico da Paz Universal. Em inúmeros textos e diversas Epístolas, Ele pressagiou, na linguagem mais explícita, os actuais eventos cataclísmicos, afirmando que o mundo da humanidade estava a enfrentar o perigo mais poderoso e declarando categoricamente que a realização da Guerra Universal era, infelizmente, inevitável e inescapável. Pois os materiais combustíveis que foram armazenados nos arsenais infernais da Europa explodirão por contacto com uma faísca. Entre outras coisas, "os Balcãs tornar-se-ão um vulcão e o mapa da Europa será alterado". Por estas razões e outras semelhantes, Ele (Bahá’u’lláh) convidou o mundo da humanidade para a Paz Universal. Ele escreveu uma série de Epístolas aos reis e governantes e, nessas epístolas, explicou os males destrutivos da guerra e alongou-se sobre os sólidos benefícios e as nobres influências da Paz Universal. A guerra desfaz os alicerces da humanidade; matar é um crime imperdoável contra Deus, pois o homem é um edifício construído pela Mão do Omnipotente. A paz é a vida encarnada; a guerra é a morte personificada. A paz é o espírito divino; a guerra é uma sugestão satânica. A paz é a luz do mundo; a guerra são as trevas estigeanas e a escuridão ciméria. Todos os grandes profetas, antigos filósofos e Livros celestiais têm sido os precursores da paz e monitores contra a guerra e a discórdia. Este é o fundamento Divino; esta é a efusão celestial; esta é a base de todas as religiões de Deus. (Idem, Pp. 243-244)

(...)

-----------------------------
Texto original: True Religion Never Calls for War (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 26 de agosto de 2017

O Messias apareceu?

Por Marty Schirn.


Os livros sagrados das principais religiões mundiais contêm inúmeras promessas e profecias sobre o aparecimento de uma figura messiânica.

Esta figura messiânica, dizem essas previsões, aparecerá no Dia do Juízo, no Dia de Deus ou no "fim dos tempos" para estabelecer o reino de Deus na Terra. Cada religião tem um nome ou título diferente para essa figura messiânica, mas as profecias são notavelmente parecidas.

Os Cristãos aguardam o regresso de Cristo. Os Judeus esperam o Messias. Os Muçulmanos aguardam o Mahdi. Os Budistas aguardam o Buda Maitreya. Os Zoroastrianos aguardam o Shah Bahram. Os Hindus aguardam o Décimo Avatar de Krishna. E mesmo as religiões indígenas norte-americanas e sul-americanas contêm esse tipo de profecias. Por exemplo, os índios Shoshone esperam o Grande Redentor.

Quem tentar entender apenas o sentido literal de todas estas profecias, vai perceber contradições entre elas e as contradições com a ciência e a razão. No entanto, quem interpretar estas profecias simbolicamente, perceberá que elas concordam com a ciência e a razão, e que todas se encaixam de forma consistente.

Os Bahá’ís acreditam que estas profecias foram cumpridas por Bahá’u’lláh, o profeta fundador da Fé Bahá’í.

Bahá’u’lláh fez duas afirmações ousadas. Em primeiro lugar, declarou que Ele era o mensageiro de Deus para esta era, tendo a mesma autoridade divina, o mesmo Espírito Santo, o mesmo poder divino, que Moisés, Buda, Cristo, Maomé e os outros fundadores das principais religiões do mundo.

A Sua segunda afirmação é ainda mais desafiadora. Ele declarou ser o Messias prometido predito em todas as profecias, em todos os livros sagrados das religiões do mundo.

Bahá’u’lláh declarou que a Sua missão era nada menos do que o estabelecimento do Reino de Deus na Terra - a unificação de toda a raça humana numa civilização espiritual globalmente abrangente, baseada nos princípios divinos da justiça e do amor, e cuja palavra de ordem será "Unidade na Diversidade", não uniformidade.

Se considerarmos esta segunda afirmação só por si, o que nós, Bahá'ís, estamos a dizer é isto: as religiões do mundo atingiram a sua consumação e cumprimento com o aparecimento de Bahá’u’lláh. Cristo regressou há mais de 150 anos, e o mundo não percebeu, tal como não percebeu na primeira vez que Ele surgiu.

Fortaleza de 'Akka
Devido a estas afirmações e ensinamentos, o clero muçulmano condenou Bahá’u’lláh como apóstata, louco e herege. Perseguiram insistentemente Bahá’u’lláh e os Seus seguidores. Os Seus bens foram confiscados; Ele foi humilhado, ridicularizado, apedrejado, envenenado e espancado. Foi encarcerado numa masmorra subterrânea obscura, que era fria, húmida e estava infestada de vermes. No Seu pescoço foi colocada uma corrente pesada; Seus pés foram amarrados. Foi exilado quatro vezes; de Teerão, na Pérsia, para Bagdade, no Iraque; depois para Constantinopla e Adrianoplis (actual Edirne), no Império Otomano; e por fim para uma terrível colónia penal de Akka, na Palestina. Viveu a maior parte de Sua vida como prisioneiro, apenas devido aos Seus ensinamentos.

Ele nunca cometeu qualquer delito ou crime. Mas o clero muçulmano colaborou com os governos persa e otomano, fazendo tudo o que estava ao seu alcance para tentar destruir o que sentiam ser uma heresia perigosa e de rápido crescimento. Apesar desta intensa perseguição, Bahá’u’lláh escreveu mais de cem volumes revelando o plano de Deus para o estabelecimento de uma paz universal e duradoura.

Hoje, a Sua fé expandiu-se tremendamente - a Fé Bahá’í espalhou-se por todo o planeta e tornou-se a segunda religião mais disseminada no mundo. Mas na segunda metade do século XIX, os ensinamentos de Bahá’u’lláh foram considerados revolucionários: a unicidade de Deus, a unidade da humanidade, a unicidade da religião, a redução do fosso entre ricos e pobres, a eliminação de todos os tipos de preconceito, a igualdade entre homens e mulheres, a harmonia de ciência e religião, a investigação independente da verdade, uma linguagem auxiliar universal, a educação obrigatória universal e - acima de tudo - a transformação e unificação espiritual de toda a raça humana.

Bahá’u’lláh escreveu cartas a todos os governantes de seu tempo: Napoleão III, Rainha Victoria, Papa Pio IX e outros. Nas Suas cartas, Bahá’u’lláh proclamou ser o Prometido, e ordenou aos reis e aos governantes que se unissem e desarmassem pacificamente. Advertiu-os sobre as graves consequências se eles não obedecessem aos Seus mandamentos, e deixou claro que, independentemente das respostas, a vontade de Deus acabaria por prevalecer. A paz mundial, disse Ele, era inevitável.

Há milhares de anos que os povos têm aguardado e orado para que Deus envie o Seu Messias, pelo aparecimento do Prometido que unifique a raça humana e estabeleça o Reino de Deus na terra. Os Bahá’ís acreditam que chegou esse momento.

É uma afirmação tremenda, não é? Os Bahá'ís reconhecem a magnitude dessas declarações, mas não as impõem a ninguém. Em vez disso, os ensinamentos Bahá’ís convidam todas as pessoas a examinar estas declarações e a decidir por si próprias, se são verdadeiras ou não. Qualquer pessoa pode acreditar nos ensinamentos Bahá’ís; mas tornar-se Bahá’í significa aceitar estas duas declarações de Bahá’u’lláh como verdadeiras. Bahá’u’lláh afirmou:
Chegou o momento predestinado para os povos e raças da terra. As promessas de Deus, conforme registadas nas Sagradas Escrituras, foram cumpridas. ... Feliz o homem que pondera no seu coração o que foi revelado nos Livros de Deus, o Auxílio no Perigo, o Que Subsiste por si Próprio. Meditai sobre isto, ó amados de Deus, e que os vossos ouvidos estejam atentos à Sua Palavra, para que possais, pela Sua graça e misericórdia, beber plenamente das águas cristalinas da constância e tornar-vos firmes e inalteráveis como uma montanha na Sua Causa. (SEB, X)

-----------------------------
Texto original: Has the Messiah Returned? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Marty Schirn é um Bahá’í de origem Judaica. Estudou psicologia e administração de empresas. Viveu em Chicago, onde trabalhou no jornal Chicago Tribune e como guia no Templo Bahá’í de Chicago. Actualmente, vive em Tucson, no Arizona (EUA)

sábado, 19 de agosto de 2017

Porque é que um Deus único tem tantas religiões?

Por Marty Schirn.


Nasci e cresci numa família do Judaísmo da Reforma em Kansas City (EUA) e minhas crenças judaicas sempre foram muito fortes, especialmente que a de que existe apenas um único Criador.

Quando tinha 16 anos, comecei a namorar. Os meus pais estabeleceram uma regra com a qual eu concordei e obedeci rigorosamente. Eu apenas podia namorar moças judias, para evitar um casamento misto.

No ensino secundário, conheci muitas moças judias através da B'nai B'rith, uma organização judaica internacional.

Mas em 1964, quando comecei a frequentar a Universidade do Kansas, o grupo B'nai B'rith tinha apenas 25 mulheres judias. Quando era caloiro, tive muitos encontros. Mas em 1965, como estudante do segundo ano, as mesmas 25 mulheres eram as únicas mulheres judias na escola. Naquela época, eu não gostava delas; e elas não gostavam de mim, ou tinham namorados. Já não havia mulheres judias para namorar!

A regra dos meus pais estava tão enraizada no meu coração que eu parei de namorar. Durante muitas noites, chorei antes de dormir. Aquilo foi extremamente traumático para mim!

Uma noite, enquanto chorava intensamente por não poder namorar, comecei a pensar como a religião se tornara uma grande barreira entre as pessoas, em vez de as unir em unidade e harmonia. De repente, surgiu uma pergunta na minha mente.

Porque é que um Deus único tem tantas religiões?

Na época, não percebi, mas esta pergunta mudou drasticamente a minha vida. Gradualmente deixei de sofrer e reflecti profundamente. Com tantas religiões e denominações que afirmam ser o único caminho para Deus, isso não fazia sentido para mim. Senti que era uma contradição ilógica.

Quando pensava nisso, percebi que geralmente a religião de uma pessoa é determinada pelo seu local de nascimento e pela religião dos seus pais. Depois ensinam-lhe que a sua religião é a verdadeira e todas as outras são falsas. Isso também não fazia qualquer sentido para mim.

Um mês mais tarde, conheci um colega chamado D.J. Tornámo-nos bons amigos. Coloquei-lhe a minha questão e fiquei surpreendido com a resposta. Ele disse-me o seguinte: "Logicamente, um Deus único só pode ter uma única religião. Ele não está em competição consigo próprio".

Depois D.J. explicou que Deus tem revelado a Sua única religião não uma, mas muitas vezes, ao longo da história. Os Seus mensageiros foram os fundadores das principais religiões mundiais: Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo e Muhammad.

Isto significa que todas as principais religiões mundiais têm origem divina, são uma única na essência, são igualmente verdadeiras, são igualmente importantes, são igualmente válidas e todas fazem parte de um processo único e gradual.

Deus, através dos Seus Mensageiros, adaptou a Sua religião única para responder às necessidades de cada era em que foi revelada – assim, as principais religiões do mundo são como diversos capítulos de um único livro. Se faltasse um capítulo, o livro estaria incompleto.

Um Criador afectuoso e universal não tem favoritos. Ele quer que todos os Seus filhos conheçam a Sua existência, que O amem e Lhe obedecem e, ao fazê-lo, se transformem nos seres humanos espirituais que Ele deseja que sejam.

Infelizmente - explicou o meu amigo - o clero falível em cada religião tentou interpretar a palavra infalível de Deus, conforme revelada pelos Seus mensageiros. E qual foi o resultado? Conflitos de interpretações, confrontos sectários e desunião. Como se isso não bastasse, o clero impôs as suas interpretações falíveis aos seus seguidores, proclamando: "A minha interpretação é verdadeira e todas as outras são falsas".

Os seguidores assumiram que seus sacerdotes eram sábios e conhecedores; e assim seguiram cegamente o clero, em vez de investigarem a verdade de forma independente, por si próprios e chegarem às suas próprias conclusões.

Isto levou à criação de inúmeras seitas, medo profundo, hipocrisia, fanatismo, preconceito, ódio, distorções exageradas dos ensinamentos originais dos fundadores das religiões do mundo e até mesmo guerras destrutivas travadas em nome da religião.

Originalmente, os mensageiros de Deus vieram para criar unidade e harmonia. O clero e os seguidores criaram desunião.

Aqui estava uma explicação que me fazia todo o sentido! Era lógica e universal. Que contraste com a contradição ilógica das visões exclusivas e restritivas da religião que vemos hoje.

Naturalmente, perguntei ao D.J. como é que ele tinha chegado a esta explicação. Ele disse que estava nos ensinamentos de Bahá'u'lláh, que afirmou:
É claro e evidente para ti que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, Que apareceram vestidos com diversos trajes. Se observares com olhar criterioso, verás todos habitando no mesmo tabernáculo, voando no mesmo céu, sentados no mesmo trono, proferindo as mesmas palavras e proclamando a mesma Fé. (Livro da Certeza, ¶162)
Após uma investigação muito profunda sobre a vida e os ensinamentos de Bahá’u’lláh, tornei-me Bahá'í em 14 de Janeiro de 1967.

Depois comecei novamente a namorar - só dessa vez, saí com mulheres de diversas religiões, raças ou nacionalidades. Que mudança maravilhosa!

-----------------------------
Texto original: Why Does One God Have So Many Religions? (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Marty Schirn é um Bahá’í de origem Judaica. Estudou psicologia e administração de empresas. Viveu em Chicago, onde trabalhou no jornal Chicago Tribune e como guia no Templo Bahá’í de Chicago. Actualmente, vive em Tucson, no Arizona (EUA)

sábado, 12 de agosto de 2017

Ser o melhor possível e aceitar o resto

Por Peter Gyulay.


Somos criaturas nobres, criadas à imagem de Deus, mas não somos perfeitos. A nossa nobreza está latente dentro de nós, à espera de ser actualizada.

Nas palavras de Bahá'u'lláh:
Ó filho de espírito! Nobre, eu te criei, porém tu tens-te degradado. Ergue-te, pois, para aquilo que que foste criado. (Baha'u'llah, As Palávras Ocultas, #22, do árabe)

Considerai o homem como uma mina rica em jóias de inestimável valor. A educação, só por si, pode fazê-la revelar os seus tesouros e habilitar a humanidade a tirar dela algum benefício (SEB, CXXII)
Educação - educação divina - permite-nos beneficiar das jóias que estão dentro de nós próprios. Ao aplicar os ensinamentos dos mensageiros de Deus, podemos desvendar as virtudes escondidas latentes nas nossas mentes, corações e almas.

Isto não é uma tarefa fácil - na verdade, constitui a principal batalha que enfrentamos na vida. Às vezes, a tarefa parece assustadora, mas se persistirmos, podemos melhorar a passos largos; podemos purificar-nos e aproximar-nos de Deus. Este trabalho espiritual básico é importante para nós próprios, e também tem um impacto significativo sobre os outros. Desta forma, os ensinamentos Bahá’ís exortam-nos a:
Decidi-vos a alcançar a vitória sobre vós próprios, para que, por ventura, toda a terra se possa libertar e santificar da sua sujeição aos deuses das suas fantasias fúteis. (SEB, XLIII)
Somos chamados a ser o melhor que pudermos ser, para que as nossas vidas possam influenciar os outros. Esta é uma tarefa nobre e, por vezes, desconcertante, porque é fácil sentirmo-nos incapazes de mudar e até fugimos da responsabilidade de levar uma vida nobre para bem da humanidade.

Tomar a iniciativa, transformar-nos exige uma grande fé, vontade e determinação. Precisamos de fé em nós próprios e de um poder superior que nos dê força para lutar com a nossa natureza inferior. Mas também precisamos da força de vontade para lutar dia-a-dia nesta batalha. Por vezes, quando nos sentimos ligados ao espírito, o amor flui de dentro de nós e a generosidade abunda. Mas no calor do momento, quando emergem sentimentos de ódio, e as tentações surgem sorrateiramente, precisamos de uma vigilância interna, que exige um esforço constante:
Apenas se exercerdes o esforço, será certo que estes esplendores brilharão, essas nuvens de misericórdia derramarão as suas chuvas, esses ventos vivificadores surgirão e soprarão, este cheiro de almíscar doce espalhar-se-á por toda parte. (Selections From the Writings of Abdu’l-Baha, p. 245)
É claro que ninguém consegue ser perfeito, e mesmo quando tentamos fazer (e ser) o nosso melhor, falhamos e vacilamos. Agir em contradição com os padrões que queremos seguir pode muitas vezes levar-nos a não nos perdoarmos a nós próprios. Da mesma forma, também nos pode levar a fazer juízos quando projectamos esses padrões sobre os outros. Porque todos nós fazemos o nosso melhor para ter uma vida nobre, qualquer sinal de imperfeição nos outros pode tornar-se ainda mais visível e nítida.

Bahá'u'lláh adverte-nos contra isso, pedindo-nos que nos foquemos nas nossas próprias falhas:
Como podes esquecer as tuas próprias falhas e ocupar-te com as falhas dos outros? (Palavras Ocultas, #26, do árabe)
Apesar de vivermos todos no mesmo mundo, apenas podemos viver na dimensão dos nossos próprios seres individuais. Todos nós podemos esforçar-nos para, juntos, construir um novo mundo e embarcar numa busca colectiva da verdade; mas para isso, temos que viver de acordo com nossa própria inteligência e consciência. Só podemos viver as nossas próprias vidas, não a vida dos outros. Então, quando julgamos outra pessoa, estamos realmente a infringir o seu mundo interior, o direito de viver a vida que ela escolheu.

Mas é complicado quando estamos a fazer o nosso melhor para nos purificarmos, e percebemos que somos o contrário dos nossos próprios ideais. De certa forma, precisamos de um padrão duplo: um para nós próprios e um para os outros. Precisamos ser mais vigilantes com nós próprios e tolerantes com os outros. Temos que nos lembrar constantemente que as "falhas" que vemos nos outros estão fora do nosso domínio e da nossa identidade. Não são algo para julgar; são algo para aprender e ser usado na nossa determinação de nos conquistarmos a nós próprios.

A única pessoa que podemos realmente conhecer é o nosso próprio ser, e é por isso que não podemos julgar os outros. Não podemos controlar o seu comportamento; só podemos controlar o nosso. Não podemos escolher os seus ideais, apenas os nossos.

Dito isto, também precisamos ter cuidado com a maneira como nos julgamos a nós próprios. O juízo interno não significa condenação - implica uma avaliação sincera da nossa situação e acções espirituais. Quando nos avaliamos todos os dias, reflectimos sobre o nosso ser e as nossas acções em relação aos ideais que pretendemos personificar, da mesma forma que avaliamos o nosso progresso rumo a um objectivo prático, como por exemplo, melhorar nosso nível de aptidão física.

-----------------------------
Texto original: Doing Your Best and Accepting the Rest (www.bahaiteachings.org)

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Peter Gyulay é escritor, músico e educador da Austrália. Interessa-se pela exploração dos aspectos mais profundos da vida. Tem um site com a sua escrita e música e um blog chamado The nooks and crannies of existence.