sábado, 18 de fevereiro de 2017

Quantos são os caminhos para Deus?

Por David Langness.


Quantos são os caminhos para Deus? Há tantos caminhos para Deus quantas as almas na Terra. (Rumi)
Provavelmente, a maioria das pessoas concordará que cada um de nós molda o seu próprio caminho para Deus, tal como Rumi sugeriu. Além disso, a maioria também concordará que os muitos e diversificados caminhos religiosos têm, pelo menos, alguma validade.

Mas nem toda a gente pensa assim. Algumas pessoas discordam profundamente, afirmando que a sua religião - ou o seu caminho particular - é o único caminho para alcançar a salvação, ou a espiritualidade, ou qualquer verdadeira iluminação; e acrescentam que todos os outros caminhos para Deus são falsos.

E o leitor? Em qual dessas perspectivas acredita?

Se você favorecer a perspectiva de Rumi, então é o que se chama pluralista religioso. Pode nunca ter ouvido nunca a expressão ou pensado em si nesta forma; mas veja estas definições de pluralismo para ver se elas reflectem aquilo que pensa e acredita:
Pluralismo: Vários grupos étnicos, religiosos, etc. coexistindo numa nação ou sociedade.

Pluralismo religioso: Uma perspectiva da fé geralmente caracterizada pela humildade em relação ao nível de verdade e eficácia da própria religião, e aos objectivos de diálogo respeitoso e compreensão mútua com outras tradições.
Ultimamente, os filósofos e os teólogos tendem a agrupar cada vez mais as pessoas de fé em três categorias distintas de crença: pluralistas, exclusivistas e inclusivistas.

O autor britânico e teólogo anglicano Alan Race, apresentou este conceito de três categorias em 1983. Sendo um conhecido defensor do entendimento e das actividades inter-religiosas, escreveu:
Os estudos religiosos estão a corrigir as nossas visões estereotipadas sobre as outras religiões; o princípio ético de respeito nas relações com os nossos vizinhos exige que aprendamos com as outras religiões; o diálogo abre a porta para uma "comunhão crítica" com outras religiões...
Então, antes de explorarmos esta nova ideia, vamos definir o que significam as duas outras abordagens de fé:

Exclusivista: pessoa religiosa que acredita que apenas um conjunto de crenças, ou práticas, pode ser, em última instância, verdadeira ou correcta, e todas as outras estão erradas.

Inclusivista: pessoa religiosa que acredita que um conjunto de crenças é absolutamente verdadeiro, mas que outros são, pelo menos, parcialmente verdadeiras.

Resumindo:

  • Se você acredita que a sua religião é a verdade absoluta e que todas as outras são falsas, você é um exclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é a mais verdadeira, mas que as outras também possuem alguma verdade, você é um inclusivista.
  • Se você acredita que sua religião é verdadeira, mas não a fonte exclusiva da verdade, e que as múltiplas crenças religiosas podem e devem coexistir no mundo, você é um pluralista.

Como é que o leitor se classifica?

Os Bahá’ís são pluralistas - na verdade, os Bahá’ís vão além do pluralismo religioso. Os ensinamentos Bahá’ís transcendem a tolerância e o pluralismo e defendem a unidade religiosa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh - acreditam firmemente os seguidores de Sua Fé - é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa; que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo; que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina; que os seus princípios básicos estão em completa harmonia; que os seus objectivos e propósitos são um e o mesmo; que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade; que as suas funções são complementares; que diferem apenas nos aspectos não essenciais das suas doutrinas; e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana. (Shoghi Effendi, The Baha’i Faith – The World Religion, A Summary of Its Aims, Teachings and History, presented to the United Nations, 1947)
Os Bahá’ís não pensam apenas na religião de forma pluralista - eles pensam na religião como uma entidade única, como um fluxo contínuo de revelação, como "facetas de uma verdade:"
As religiões divinas devem ser motivo de unidade entre os homens e instrumentos de unidade e de amor; devem promulgar a paz universal, libertar o homem de todo o preconceito, dar alegria e regozijo, exercitar bondade para com todos os homens e acabar com todas as diferenças e distinções. (Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, #13)
Mas como podem as várias religiões - tantas vezes em desacordo umas com as outras - tornar-se sempre "motivo da unidade entre os homens" e "acabar com todas as diferenças e distinções?"

Nesta série de ensaios sobre o pluralismo religioso, vamos ver como os ensinamentos Bahá’ís se propõem resolver este antigo dilema humano.

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Texto original: How Many Paths to God? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Descobrir a Esperança num Mundo em desordem



Todos nós somos afectados pelo sofrimento das pessoas em qualquer lugar; então, como podemos manter a esperança viva?

O sofrimento ultrapassa todas as fronteiras: vemos isso na Síria e noutras regiões devastadas pela guerra; nos numerosos refugiados que abandonaram as suas terras natais por causa da guerra, da perseguição, da degradação ambiental e da pobreza; nos quase mil milhões de pessoas que passam fome todos os dias; nos trabalhadores fabris e agrícolas explorados em muitos lugares do mundo; nas crianças pobres que não têm alimentação, cuidados de saúde e educação adequados; entre as muitas pessoas que sofrem com a violência armada e com um sistema criminal e prisional injusto; entre os povos indígenas que lutam pela sobrevivência cultural e pela protecção das suas águas e terras; entre as muitas pessoas cujas mentes são oprimidas por informação enganosa e pela manipulação; entre todas as pessoas que são discriminadas devido à sua raça, religião ou opiniões políticas; entre muitas pessoas que sofrem de perseguição devido ao fanatismo religioso, como os Bahá’ís no Irão; e entre as muitas mulheres que ainda são oprimidas em muitos locais do mundo.

Também estamos profundamente conscientes da contínua extinção de espécies vegetais e animais devido à destruição de habitats, exploração, poluição e alterações climáticas. Preocupamo-nos com as gerações futuras devido aos atrasos nas acções para manter o aquecimento global dentro de certos limites. Preservar um planeta habitável para as gerações futuras parece tornar-se um objectivo cada vez mais ilusório.

No entanto, não devemos perder a esperança.

Os Bahá’ís acreditam que Deus nos enviou uma nova revelação, na pessoa de Bahá’u’lláh, que fala destes problemas actuais - e que todos podem ser enfrentados de forma eficiente, implementando os ensinamentos Bahá'ís, a nível individual e colectivo. Mas Bahá’u’lláh alertou-nos que a humanidade passará por um período de grave sofrimento antes de estar pronta para ouvir a nova mensagem de Deus. As escrituras Bahá’ís explicam:

O propósito de Deus não é outro senão dar início - de maneiras que só Ele consegue, e cujo pleno significado só Ele pode sondar - à Grandiosa Idade de Ouro de uma humanidade há muito dividida e atormentada. O seu estado actual, e até mesmo o seu futuro imediato, é sombrio, angustiantemente sombrio. O seu futuro distante, porém, é radiante, gloriosamente radiante - tão radiante que nenhum olhar o pode visualizar.

"Os ventos do desespero", escreve Bahá'u'lláh, ao avaliar os destinos imediatos da humanidade, "estão, infelizmente, a soprar de todas as direcções, e a luta que divide e atormenta a raça humana aumenta diariamente. Os sinais das convulsões e caos iminentes podem agora ser discernidos, pois a ordem predominante parece estar lamentavelmente defeituosa." (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, p.116)

Bahá’u’lláh também nos advertiu sobre os exageros da civilização material e de ultrapassarmos os nossos limites:

Quem adere à justiça, não pode, em nenhuma circunstância, transgredir os limites da moderação... A civilização, tão frequentemente alardeada pelos sábios representantes das artes e das ciências, se lhe for permitido transpor os limites da moderação, provocará um grande mal aos homens... Se levada ao excesso, a civilização mostrar-se-á como uma prolífica fonte de mal, tal como tinha sido de benevolência quando mantida dentro dos limites da moderação. (Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, sec. CLXIV)

Enquanto vemos os problemas da humanidade crescerem para dimensões enlouquecedoras, também podemos ver o espírito da nova revelação Bahá’í começar a florescer, permeando os pensamentos e sentimentos da humanidade.

A escravidão foi abolida nos Estados Unidos no ano em que Bahá’u’lláh proclamou a Sua missão. O mundo tem feito progressos consistentes na igualdade racial e de género. O ensinamento originalmente revolucionário de Bahá'u'lláh de que "a Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos" tocou as almas de muitas pessoas em todo o mundo. A cooperação internacional evoluiu e atingiu um nível significativo com o Acordo Climático de Paris de 2015. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas abordam todos estes problemas e parecem estar marcados com o espírito que Bahá’u’lláh trouxe ao mundo.

Assim, podemos esperar que o processo de maturação e a unificação da humanidade seja precedido de grande agitação. No entanto, Deus prometeu-nos através de todas as religiões que haverá um tempo em que as pessoas viverão em paz, quando "transformarem as suas espadas em arados". As escrituras Bahá'ís explicam isso muito bem:

O mundo, na verdade, está a avançar em direcção ao seu destino. A interdependência dos povos e nações da Terra, não obstante o que os líderes das forças divisórias do mundo possam dizer ou fazer, já é um facto consumado. A sua unidade na esfera económica é agora compreendida e reconhecida. O bem-estar de uma parte significa o bem-estar do todo, e o sofrimento de uma parte angustia o todo. A Revelação de Bahá’u’lláh, segundo as Suas próprias palavras, deu "um novo impulso e definiu uma nova direcção" para este vasto processo que agora opera no mundo. Os incêndios ateados por esta grande provação são as consequências do fracasso dos homens em reconhecê-lo. Eles estão, além disso, a acelerar a sua consumação. A adversidade, prolongada, global, tormentosa, aliada ao caos e à destruição universal, deve necessariamente abalar as nações, agitar a consciência do mundo, desenganar as massas, precipitar uma mudança radical no próprio conceito de sociedade e juntar os membros ensanguentados e dispersos da humanidade num corpo único, organicamente unido e indivisível. (Shoghi Effendi, The PromisedDay is Come, pag. 122-123)

Então o que é que todos nós podemos fazer? Os Bahá’ís trabalham em duas áreas para realizar a unidade do mundo. Em primeiro lugar, participam numa comunidade mundial assente nos princípios espirituais e nos ensinamentos sociais de Bahá’u’lláh - com o objectivo de construir uma sociedade global espiritual, justa e um ambientalmente sustentável, onde cada ser humano seja respeitado e cuidado, e onde cada indivíduo se esforça para servir o bem comum. Em segundo lugar, sempre que podem, os Bahá’ís colaboram com pessoas de outras religiões e sem religião para aliviar o sofrimento humano e encontrar soluções para os problemas sociais. Todos são bem-vindos para se unirem nestes esforços.

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Christine Muller estudou música e é uma apaixonada pelo meio-ambiente e pela Fé Bahá’í. Actualmente é professora no Wilmette Institute no curso sobre alterações climáticas.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Música: a linguagem do coração



Ser músico e ser Bahá’í permite-me ter duas perspectivas que prendem a minha atenção – especialmente quando convergem.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem muito sobre a música e o seu impacto arrebatador na alma humana:

Tornámos legítimo para vós ouvir música e canto. Acautelai-vos, porém, para que a sua audição não vos leve a ultrapassar os limites da conveniência e da dignidade. Que o vosso prazer seja o prazer nascido do Meu Mais Grandioso Nome, um nome que trouxe arrebatamento ao coração e encheu de êxtase as mentes daqueles que se aproximaram de Deus. Em verdade, fizemos da música uma escada para as vossas almas, um meio pelo qual elas se possam elevar ao reino no alto; não a façais, pois, como asas para o ego e a paixão. Em verdade, repugna-nos ver-vos contados entre os insensatos. (Bahá’u’lláh, The Most Holy Book, ¶ 51)

Com isto em mente, vamos ver no dicionário a definição de quatro palavras-chave nesta citação: conveniência, dignidade, ego e paixão:

Conveniência: o que convém a alguém; qualidade do que é apropriado ao fim a que se destina; adequação; conformidade; pertinência; vantagem; interesse; proveito;
Dignidade: título ou cargo que confere a alguém uma posição elevada; cargo honorífico; honraria; qualidade moral que infunde respeito; respeitabilidade; autoridade moral; decência; gravidade; modo digno de proceder; atitude nobre; nobreza; grandeza; consciência do próprio valor; pundonor;
Ego: o ser enquanto entidade consciente; auto-estima;
Paixão: sentimento intenso e geralmente violento (de afecto, ódio, alegria, etc.) que dificulta o exercício de uma lógica imparcial; objecto desse sentimento; grande predilecção; parcialidade; grande desgosto; sofrimento intenso;

Obviamente, estas palavras têm muitas conotações com coisas em que podemos pensar quando vemos o que se passa hoje no mundo da música.

É verdade que não estamos no século 19, mas no século 21. No entanto, os ensinamentos Bahá’ís pedem-nos que clarifiquemos as definições que seguimos – as que vêm do nosso Criador ou as definições mais correntes e populares prontamente disponíveis para todos nós através de vários meios, nomeadamente a TV, o cinema, a literatura e também a música.

Músicos e artistas Bahá’ís vêem o nosso papel como expoentes de uma Nova Ordem Mundial. Fazemos música para elevar a alma humana “ao reino no alto”, o que ajuda a criar unidade e harmonia entre a humanidade. Esse caminho não se encontra numa qualquer tendência popular à nossa volta, mas compete-nos criar uma sinfonia e um coro diversificado de novas vozes para estes novos tempos que abraçámos:

A arte da música deve ser levada aos mais altos níveis de desenvolvimento. Pois esta é uma das mais maravilhosas artes e nesta era gloriosa do Senhor da Unidade é essencial conseguir o seu domínio. No entanto, devemos esforçar-nos por conseguir um grau de perfeição artística e não ser como aqueles que deixam os assuntos por acabar. (‘Abdu’l-Bahá, de uma epístola traduzida do persa)

O grande humanista Albert Schweitzer fez um estudo sobre Bach e escreveu:

Com Bach, a música é um acto de adoração. A sua actividade artística e a sua personalidade baseiam-se ambas na sua piedade. Toda a grande arte, mesmo a secular, é em si religiosa aos seus olhos, pois para ele, os sons não morrem, mas ascendem a Deus como louvores demasiado profundos para serem proferidos.

Schweitzer prossegue citando as regras e princípios de acompanhamento que Bach prescreveu aos seus alunos:

Tal como em toda a música, o baixo figurado (que era o princípio harmónico da música) não deve ter outro fim e propósito senão a glória de Deus e a recriação da alma; se não se tem isto em mente, não há verdadeira música, mas apenas ruídos e gritos infernais.

Acho muito interessante perceber que a referência de Bach àquilo à verdadeira música, se assemelhe aos comentários de Bahá’u’lláh e ‘Abdu’l-Bahá, feitos 200 anos depois. Os ensinamentos Bahá’ís designam a música como “o alimento espiritual de corações e almas”:

Entre as nações do Oriente, a música e a harmonia não eram aprovadas, mas a Luz Manifesta, Bahá’u’lláh, neste período glorioso revelou em Epístolas Sagradas que o canto e a música são o alimento espiritual de corações e almas. Nesta dispensação, a música é uma das artes que é altamente aprovada e é considerada como sendo causa de exaltação dos corações tristes e desanimados.

A música é muito importante. A música está no coração da própria linguagem. AS suas vibrações elevam o espírito; é uma arte grande e bela. (’Abdu’l-Bahá, Star of the West, Volume 9, p. 131)

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Marvin “Doc” Holladay é saxofonista barítono que fez carreira no jazz, tendo tocado com músicos como Duke Ellington, Dizzy Gillespie, Charles Mingus e Ella Fitzgerald.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Recordar a defensora da emancipação das mulheres

Estátua da Mulher Libertada,
em Baku (Azerbeijão)
A história de Tahirih, uma heroína Bahá’í de ascendência azeri, é há muito tempo um símbolo de inspiração no Azerbaijão. Trata-se de uma das mais notáveis defensoras da igualdade entre mulheres e homens, no século XIX.

No dia 25 de Janeiro, o Museu Nacional de História do Azerbaijão realizou uma conferência sobre a educação das mulheres nos séculos XIX e XX, onde foram reconhecidas a dedicação e a contribuição de Tahirih para o progresso das mulheres.

"Tahirih é vista com muita consideração; ela não é apenas conhecida na Fé Bahá'í, mas é também conhecida e respeitada em todo o Oriente ", explicou Azer Jafarov, professor da Universidade Estadual de Baku. "Ela influenciou a literatura moderna, fez o apelo para a emancipação das mulheres e teve um impacto profundo na consciência pública.

"O cumprimento da visão de Tahirih sobre a emancipação foi encontrando maior expressão ao longo do tempo", continuou o Dr. Jafarov. "É a ascensão de um sol que traz luz ao coração humano."

Um livro recentemente publicado sobre a vida e as obras de Tahirih, foi apresentado na conferência por Salahaddin Ayyubov, um representante da comunidade Bahá'í. Esta apresentação destacou o impacto de Tahirih no progresso das mulheres. Neste evento, também foram debatidas as suas contribuições para a poesia, pelas quais ela é bastante conhecida.

"Tahirih é uma grande personalidade homenageada por escritores cristãos, ateus e muçulmanos. A sua visão de grande alcance sobre a realidade é uma luz sobre as aspirações de todos os que anseiam pela paz e harmonia ", disse Ali Farhadov, investigador do Museu Nacional de História do Azerbaijão.

"Hoje, não são apenas as mulheres do Oriente, mas todo o planeta que devem aprender com o seu carácter e vida, que é uma personificação da liberdade de pensamento, da emancipação das mulheres e da atitude de busca independente pela verdade".

Diz-se que uma estátua no centro de Baku, representado uma mulher retirando o véu, terá sido influenciada pela história de Tahirih. O monumento, conhecido como "a estátua da mulher liberada", foi construído em 1960 pelo escultor Fuad Abdurrahmanov.

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sábado, 28 de janeiro de 2017

As pessoas espirituais ficam deprimidas?



Um em cada dez americanos toma antidepressivos - na verdade, a depressão é violenta na sociedade moderna.

Infelizmente, a depressão costuma aparecer como um estigma, incluindo sentimentos de embaraço e culpa. É frequente não falarmos sobre isso, nem admitimos isso. Assim, será que as pessoas espirituais ficam deprimidas ou a espiritualidade, de alguma forma, impede que isso aconteça?

Toda gente passa por períodos de tristeza e depressão na vida – incluindo aqueles que têm uma visão espiritual da vida. Esta existência material, de acordo com os ensinamentos Bahá’ís, oferece a cada ser humano um certo número de oportunidades para sofrimento, depressão e frustração:

... quando a tristeza nos visita tornamo-nos fracos, a nossa força abandona-nos, a nossa compreensão enfraquece e nossa inteligência encobre-se. As realidades da vida parecem escapar à nossa compreensão, os olhos dos nossos espíritos não conseguem descobrir os mistérios sagrados, e tornamo-nos semelhantes a seres mortos.

Não há nenhum ser humano intocado por estas duas influências; mas toda a tristeza e sofrimento que existem vêm do mundo da matéria - o mundo espiritual concede apenas a alegria!

Se sofremos isso é o resultado das coisas materiais, e todas as provações e dificuldades vêm deste mundo de ilusão.

Por exemplo, um comerciante pode perder o seu negócio e segue-se a depressão. Um trabalhador é demitido e enfrenta a fome. Um agricultor tem uma má colheita, a ansiedade enche a sua mente. Um homem constrói uma casa que arde completamente e ele fica imediatamente sem abrigo, arruinado e em desespero.

Todos estes exemplos mostram que as provações que assolam todos os nossos passos, toda a nossa tristeza, dor, vergonha e tristeza, nascem no mundo da matéria... ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks,pp. 109-110)

Mas… e se focarmos uma luz diferente sobre a depressão? E se a depressão temporária for a escuridão da lagarta no interior do casulo? Ou a semente plantada na escuridão do solo? E se uma derrota se tornar, de facto, um avanço? Poder-se-ia argumentar, como fazem muitos investigadores e profissionais de saúde mental, que a tristeza temporária, a dor e a depressão, na verdade, contribuem para o crescimento e desenvolvimento espiritual.

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a depressão vem unicamente do mundo material, e em oposição, a alegria vem do espiritual:

Hoje, a humanidade está vergada com problemas, tristeza e dor; ninguém escapa; o mundo está lavado em lágrimas; mas, graças a Deus, o remédio está à nossa porta. Vamos afastar os nossos corações do mundo da matéria e viver no mundo espiritual! Só por si, isso pode dar-nos liberdade! Se estamos cercados por dificuldades, apenas temos de invocar Deus, e pela Sua grande Misericórdia seremos ajudados.

Se a tristeza e a adversidade nos visitam, voltemos as nossas faces para o Reino e a consolação celestial será derramada.

Se estamos doentes e angustiados, imploremos a cura de Deus e Ele responderá à nossa oração.

Quando os nossos pensamentos estão cheios de amargura deste mundo, voltemos nossos olhos para a doçura da compaixão de Deus e Ele enviar-nos-á a calma celestial! Se estamos aprisionados no mundo material, o nosso espírito pode voar para os Céus e seremos livres!

Quando os nossos dias estão a chegar ao fim pensemos nos mundos eternos, e ficaremos cheios de alegria! (Idem, p.108)

Assim, o crescimento espiritual que vem dos nossos testes e provações não é a dor em si, mas o deixá-la ir, tornar-se desprendido, mostrar confiança e fé e, finalmente, a submissão à vontade de Deus.

Quando ao confiar em Deus, conseguimos sair das trevas da dor e da tristeza, deixando-a ir e "voltando nossos olhos para a doçura da compaixão de Deus", iniciamos a transformação. A semente que foi plantada na escuridão do solo começa a germinar, e quando ela romper o solo, a luz do sol vai dar-lhe calor e luz para crescer.

Ao ler diariamente as sagradas escrituras as nossas mentes são treinadas para pensar em termos de significados espirituais; e assim, quando nos deparamos com mais testes e provações, somos menos propensos a cair novamente no fosso da depressão e do desespero.

No entanto, em alguns casos - como a depressão crónica prolongada - existem outros factores que podem ser importantes e há necessidade de acompanhamento médica. A depressão pode ter causas físicas - problemas na tiróide, hormonas, deficiências nutricionais, estilo de vida, saúde intestinal, desequilíbrios na química do cérebro, etc. A nossa existência física, emocional, mental e espiritual precisa de estar equilibrada.

Mas, se os médicos competentes excluem esses factores físicos, lembre-se destas palavras consoladoras de 'Abdu'l-Bahá:

Os homens que não sofrem, não alcançam a perfeição. A planta mais podada pelos jardineiros é aquela que, quando chega o verão, terá as mais belas flores e os frutos mais abundantes. (Idem, p. 50-51)

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Texto original: Do Spiritual PeopleGet Depressed? (www.bahaiteachings.org)


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Rebecca Sherry Eshraghi é uma Bahá'í que vive na Flórida. É casada e tem dois filhos. Cresceu na Alemanha num ambiente multicultural, onde obteve o seu diploma em Negócios Internacionais. Recentemente concluiu o doutoramento em Medicina Natural.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Não digam às minhas filhas que elas são bonitas (pelo menos ao início!)



Estimado Mundo,

O meu nome é Layli Miller-Muro. Sou Bahá’í e advogada; fundei uma organização sem fins lucrativos chamada Tahirih Justice Center, cuja missão inclui proteger as mulheres imigrantes abusadas; e sou mãe de duas meninas e um rapaz.

Todos os dias no meu trabalho, vejo o impacto da sexualização das meninas e da enorme atenção que a sociedade dá à sua aparência. Em todo o mundo, as mulheres são transformadas em objectos - os seus corpos são a primeira coisa em que se repara e são vistos como tendo mais valor do que as suas mentes. Os resultados são devastadores. No meu trabalho, vejo mulheres e meninas vendidas para a escravatura sexual, violadas por homens (incluindo membros da própria família), forçadas a casar-se muito jovens e violentamente abusadas.

Percebi que as mulheres que conseguem superar as piores experiências e tribulações da vida costumam ter um profundo sentido interior do seu próprio valor espiritual, e cheguei à conclusão que pretendo - mais do que tudo - ensinar essa nobreza e essa auto-estima profundamente enraizadas a todos os meus filhos.

Assim, quando você um dia encontrar as minhas filhas, por favor, tente evitar, se possível, que o seu primeiro e único comentário seja sobre sua aparência física. O meu marido e eu temos trabalhado muito para lhes incutir a ideia de que o seu carácter, a sua mente e sua alma têm mais importância do que o seu aspecto físico - mas a realidade daquilo que as pessoas parecem valorizar na nossa cultura profundamente materialista parece muitas vezes desfazer os nossos melhores esforços.

Recentemente, a nossa filha de seis anos estava obcecada com a roupa que ia vestir e disse: “Se eu não estiver bonita as pessoas não são simpáticas para mim.” Infelizmente, ela está a aprender muito depressa a verdade sobre muitas interacções de adultos com meninas. Se algum de vós vir as minhas filhas, por favor, não deixe a primeira coisa que lhes diga seja "Estás tão bonita!" Já houve muitas pessoas que fizeram isso, e de certa forma, as minhas filhas já aprenderam que as pessoas acham que a aparência delas é muito importante.

Em vez disso, perguntem-lhes sobre os projectos de serviço em que elas estão a participar, sobre as suas colecções Lego, sobre os livros que estão a ler e os desportos que mais gostam. Foque as suas perguntas e o seu diálogo numa virtude ou num atributo espiritual que gostasse de encorajar.

Não me interpretem mal - não há nada de errado em ser, ou sentir-se, bonita. E é bom ouvir isso dos outros de vez em quando. Mas isso não deve ser o primeiro comentário – e o mais frequente – que as meninas devem ouvir. Isso envia-lhes uma mensagem de que isso é o mais importante. O louvor e a atenção reforçam o comportamento que queremos ver nos outros. A obsessão pela aparência não é o comportamento que desejamos.

Obrigado pela sua ajuda no combate às pressões sobre as meninas para, em primeiro lugar, serem bonitas. E obrigado por ajudar as minhas filhas, e todas as meninas do mundo, a valorizar os seus atributos interiores mais do que os exteriores:

Assim, é claro que a honra e o engrandecimento do homem devem ser algo mais do que riquezas materiais. Os confortos materiais são apenas um ramo, mas a raiz do engrandecimento do homem são os bons atributos e as virtudes que são os adornos da sua realidade. Estas são as aparências divinas, as bênçãos celestiais, as emoções sublimes, o amor e o conhecimento de Deus; sabedoria universal, percepção intelectual, descobertas científicas, justiça, equidade, veracidade, benevolência, coragem natural e força mental inata; o respeito pelos direitos e a manutenção de acordos e convénios; rectidão em todas as circunstâncias; servir a verdade em todas as condições; o sacrifício da própria vida para o bem de todos; bondade e estima por todas as nações; obediência aos ensinamentos de Deus; serviço ao Reino Divino; a orientação do povo e a educação das nações e raças. Esta é a prosperidade do mundo humano! Este é o engrandecimento do homem no mundo! Esta é a vida eterna e a honra celestial! ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, p. 79)

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Layli Miller-Muro é fundadora e directora do Tahirih Justice Center (www.tahirih.org), uma organização sem fins lucrativos de inspiração Bahá’í dedicada à protecção de mulheres e meninas contra abusos de direitos humanos. O seu envolvimento nesta organização valeu-lhe vários prémios e distinções, tendo sido mencionada no “150 Fearless Women in the World” (150 Mulheres Destemidas no Mundo) da Newsweek Magazine/Daily Beast. Vive com o marido e três filhos em Washington, DC (EUA).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um novo livro de Escrituras de Bahá’u’lláh


Foi ontem anunciado pelo Centro Mundial Bahá’í a publicação de um novo livro de Escrituras Bahá’ís. Este novo volume, intitulado Days of Remembrance, Selections from the Writings of Baha'u'llah for Baha'i Holy Days (Dias da Memória, Selecção de Escrituras de Bahá’u’lláh para os Dias Sagrados Bahá’ís) apresenta um conjunto de textos das Escrituras Bahá’ís traduzidos para inglês.

Este novo livro inclui quarenta e cinco textos revelados especificamente para, ou relacionados com, os nove dias sagrados anualmente celebrados pelos Bahá’ís. Esta publicação antecede a celebração dos bicentenários dos nascimentos de Bahá’u’lláh e do Báb, em 2017 e 2019, respectivamente, e para os quais as comunidades Bahá’ís em todo o mundo se estão a preparar.

Sobre a celebração dos dias sagrados, no prefácio deste novo livro afirma-se: “Esta memória tem uma dimensão pessoal, proporcionando um momento para reflexão sobre o significado destes eventos, e uma dimensão social, ajudando a aprofundar a identidade e a fomentar a coesão da comunidade.

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Sou um Cidadão do Mundo



"Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo." (Diógenes)

Alguém se lembra de ter ouvido falar de Diógenes na escola? Geralmente, pensamos nele como aquele filósofo grego antigo que deambulava com uma lanterna e dizia às pessoas que estava "à procura de um homem honesto".

Mas essa pequena história, com que Diógenes provavelmente pretendeu fazer um comentário irónico sobre a sua sociedade, é apenas uma pequeníssima parte da vida desse homem fascinante.

Diógenes de Sinope (a cidade na actual Turquia onde ele nasceu) também ficou conhecido como Diógenes, o Cínico - e não é o tipo de cínico mais fácil de reconhecer.

A escola cínica da filosofia grega começou com Diógenes. Ele sentia que o objectivo da vida incluía adquirir virtudes humanas e viver em harmonia com a natureza - e sentia que a maneira de fazer essas coisas era rejeitar a sociedade e moralidade convencionais, expressando as suas ideias filosóficas através de actos e não de palavras. Diógenes acreditava que os seres humanos só poderiam alcançar a felicidade ao desprender-se dos desejos - por coisas como a fama, riqueza, sexo e poder - e levando uma existência simples, natural, e não possuindo bens materiais.

Provavelmente influenciado pelos ideais budistas e pelos primeiros ensinamentos cristãos, a filosofia do cinismo de Diógenes espalhou-se pelo Império Romano no primeiro século EC.

Diógenes fez da sua filosofia o seu estilo de vida. Criticava as convenções, rejeitava bens, não usava sapatos mesmo no inverno e dormia numa grande bilha de barro na praça da cidade. Hoje as pessoas podem pensar em alguém como Diógenes como um sem-abrigo ligeiramente perturbado; mas no seu tempo ele satirizou Platão, interrompeu os seus discursos, ridicularizou os valores sociais corruptos e as instituições da sociedade grega, e escarneceu publicamente Alexandre, o Grande. A famosa história sobre a lanterna? Provavelmente, Diógenes andou com ela em Atenas durante o dia, para satiricamente apontar o facto de não se poder encontrar nenhum homem honesto na Grécia, dia ou noite.

Quando encontrou Alexandre, o Grande - famoso conquistador e conhecido como "Rei dos Reis" - Diógenes contemplava uma pilha de ossos humanos. Ele disse ao Rei, que tinha escravizado populações inteiras: "Estou à procura dos ossos de seu pai, mas não posso distingui-los dos de um escravo".

Quando Diógenes disse "Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo", começou um movimento de massas. De repente, as pessoas intitulavam-se "cosmopolitas" - cosmos significando todo o mundo conhecido e polis significando cidade. Essa afirmação radical de cidadania mundial continha uma crítica acentuada ao sistema de cidades-estado que se guerreavam, e afectou todo o mundo civilizado à medida que se espalhava. Ajudou a iniciar a escola filosófica do estoicismo, que sustentava que cada pessoa pertence a duas comunidades: a comunidade local do seu nascimento e toda a comunidade humana. Em última análise, influenciou fortemente filósofos e pensadores Immanuel Kant, Jacques Derrida, Thich Nhat Hanh e muitos outros; e por fim, inspirou a formação do crescente movimento de Cidadãos Globais.

Os ensinamentos Bahá’ís incluem a perspectiva da cidadania mundial - tal como Diógenes e os cosmopolitas - mas os Bahá’ís trabalham activamente para tornar a cidadania mundial uma realidade, em vez de apenas um conceito filosófico. Bahá'u'lláh afirmou: "A terra não é senão um país e a humanidade seus cidadãos." 'Abdu'l-Bahá exortou todas as pessoas a considerarem-se cidadãos do planeta:

Os povos do futuro não dirão, "eu pertenço à nação de Inglaterra, de França ou da Pérsia"; pois todos eles serão cidadãos de uma nacionalidade universal - a família única, o país único, o mundo único da humanidade - e então essas guerras, ódios e lutas terminarão. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 18)

Acima de tudo, a Fé Bahá'í ensina, formula e exemplifica o ideal da unidade. Exorta-nos a derrubar as barreiras entre as pessoas e as nações. Encoraja-nos a expandir os nossos horizontes e ampliar a nossa visão, passando de uma identidade estritamente local, regional, étnica, racial ou nacional a uma cidadania global que podemos afirmar como nosso direito de nascimento espiritual.

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.