sábado, 29 de abril de 2017

O Culto no Altar do Nacionalismo

Por David Langness.


Sou uma patriota universal... o meu país é o mundo – Charlotte Bronté
Sabe qual a diferença entre nacionalismo e patriotismo? O jornalista e autor americano Sydney J. Harris descreveu essa diferença:
A diferença entre patriotismo e nacionalismo é que o patriota tem orgulho do seu país por aquilo que faz e o nacionalista tem orgulho pelo seu país independentemente daquilo que faz; a primeira atitude cria uma sensação de responsabilidade, mas a segunda cria um sentido de arrogância cega que leva à guerra.
O nacionalismo exagerado e tacanho, como todos nós testemunhámos durante o século passado, já esteve muito perto de destruir o mundo tal como o conhecemos. O fervor nacionalista raivoso levou à corrida aos armamentos que iniciou a Primeira Guerra Mundial, e resultou no assassinato sem sentido de milhões de pessoas. Depois, as questões não resolvidas da Primeira Guerra Mundial e o nacionalismo flagrante da Alemanha nazi e do Japão imperialista provocaram a Segunda Guerra Mundial. Tornando-se os pontos mais baixos da história humana - com quase cem milhões mortos -, essas duas guerras provaram ao mundo que o nacionalismo já não podia responder às nossas necessidades na era internacional.

Do ponto de vista Bahá’í, o nacionalismo tornou-se um dos três ídolos que os humanos construíram e depois adoraram, para nosso grande mal e vergonha. O nacionalismo - porque procura exaltar uma nação acima de todas as outras - só pode levar à morte e à destruição. Os outros dois ídolos que construímos - o racismo e o comunismo - procuraram exaltar uma raça dominante ou uma classe dominante acima das outras. O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, destinou a sua crítica mais severa para aqueles que reverenciam e promovem o nacionalismo, o racismo e o comunismo:
O próprio Deus foi, de facto, destronado dos corações dos homens, e um mundo idólatra saúda e adora apaixonada e clamorosamente os falsos deuses que as suas próprias fantasias fúteis criaram fatuamente e as suas mãos mal guiadas tão impiamente exaltaram. Os principais ídolos no templo profanado da humanidade não são senão os triplos deuses do nacionalismo, do racismo e do comunismo, em cujos altares governos e povos, sejam democráticos ou totalitários, estejam em paz ou em guerra, sejam do Oriente ou do Ocidente, cristãos ou islâmicos, estão, de várias formas e em diferentes graus, agora a adorar. Os seus sumo-sacerdotes são os políticos e os doutores mundanos, os chamados sábios da época; o seu sacrifício, a carne e o sangue das multidões massacradas; os seus encantamentos, pregões antiquados e fórmulas insidiosas e irreverentes; o seu incenso, o fumo da angústia que emana dos corações dilacerados dos despojados, dos estropiados e dos desabrigados. As teorias e as políticas, tão doentias, tão perniciosas, que deificam o Estado e exaltam a nação acima da humanidade, que procuram subordinar as raças irmãs do mundo a uma única raça, que discriminam o preto e o branco e que toleram o domínio de uma classe privilegiada sobre todas as outras - essas são as doutrinas obscuras, falsas e tortuosas, pelas quais qualquer homem ou pessoa que acredite nelas ou que aja de acordo com elas, mais cedo ou mais tarde, sujeitar-se-á à ira e ao castigo de Deus. (The Promised Day is Come, pag. 113-114)
Então, como é que os ensinamentos Bahá'ís sugerem que se combatam estes três ídolos sombrios e destrutivos?

Primeiro, Bahá'u'lláh ensinou, podemos trabalhar humildemente para desenvolver uma nova consciência como cidadãos globais, como membros de uma família humana, recusando-nos a exaltar a nós próprios acima de qualquer outra pessoa:
... eliminem as diferenças e apaguem a chama do ódio e da inimizade, para que toda a terra possa vir a ser vista como um único país. (Bahá'u'lláh, Epistle to the Son of the Wolf, p. 122)

... habitamos num único globo terrestre. Na realidade somos uma família e cada um de nós é um membro desta família. ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 41) 
Todos podem viver em qualquer lugar no globo terrestre. Portanto, mundo inteiro é o lugar de nascimento do homem... Toda a área limitada a que chamamos o nosso país natal, consideramos a nossa pátria; mas o globo terrestre é a pátria de todos e não é uma qualquer área restrita. ('Abdu'l-Bahá, Selections from the Writings of 'Abdu'l-Bahá, p. 300)

Então, ao envolvermo-nos no processo de destruição dos falsos ídolos do nacionalismo, do racismo e do comunismo nos nossos corações e na nossa consciência humana colectiva, podemos começar a antecipar e a trabalhar para alcançar a unidade orgânica da humanidade, da religião e do mundo:
Uma comunidade mundial na qual todas as barreiras económicas terão sido permanentemente demolidas e a interdependência do Capital e do Trabalho definitivamente reconhecida; em que o clamor da luta e do fanatismo religioso terá sido silenciado para sempre; em que a chama da animosidade racial terá sido finalmente extinta; em que um único código de direito internacional - o produto da opinião ponderada dos representantes federados do mundo - terá como a sua pena a intervenção instantânea e coerciva das forças combinadas das unidades federadas; e, finalmente, uma comunidade mundial onde a fúria de um nacionalismo caprichoso e militante terá sido transformada numa consciência permanente de cidadania mundial – aparenta ser, de facto, num esboço mais amplo, a Ordem antecipada por Bahá'u'lláh, uma Ordem que virá a ser considerada como o fruto mais apreciado de uma era de amadurecimento lento. (Shoghi Effendi, The World Order of Bahá'u'lláh, p. 40)

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Texto original: Worshipping at the Altar of Nationalism (www.bahaiteachings.org

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 22 de abril de 2017

Unir o Mundo com Patriotismo e Federalismo

Por David Langness.


Vivemos um momento crítico na história humana e enfrentamos uma nova questão: devemos governar-nos como nações distintas ou como um planeta unido.

Essa escolha histórica - globalismo ou nacionalismo - decidirá o futuro.

Este desafio de importância vital - inicialmente apresentado por Bahá'u'lláh em meados do século XIX, quando Ele apelou aos líderes políticos e religiosos do mundo para que se unissem e desarmassem as suas nações - tornou-se agora a questão central do nosso tempo. Continuamos pelo antigo caminho e bem conhecido do nacionalismo, o meio que dominou a organização política do planeta nos últimos 228 anos; ou vamos seguir por uma nova estrada e vamos além das fronteiras nacionais para estabelecer um sistema de governação global?

Os ensinamentos Bahá'ís defendem fortemente a opção pela nova estrada:
O nacionalismo desenfreado, distinto de um patriotismo são e legítimo, deve dar lugar a uma lealdade mais ampla, ao amor à humanidade como um todo. A afirmação de Bahá’u’lláh é: “A terra é um só país e a humanidade e os seus cidadãos”. O conceito de cidadania mundial é um resultado directo da contracção do mundo num único bairro, através de avanços científicos e da indiscutível interdependência entre as Nações. O amor a todos os povos do mundo não exclui o amor ao próprio país. A vantagem da parte numa sociedade mundial fica melhor servida com a promoção da vantagem do todo. (A Casa Universal da Justiça, Outubro de 1985, The Promise of World Peace, p. 3)
Assim, para os Bahá'ís, o patriotismo e o amor à pátria não são obsoletos - apenas foram substituídos pelo reconhecimento de um patriotismo maior e supranacional, o que significa desenvolver uma lealdade mais ampla, que abrange toda humanidade, e um amor pela Terra que nos sustenta a todos:
Não haja dúvidas quanto ao propósito que anima a Lei mundial de Bahá'u'lláh. Longe de visar a subversão das fundações existentes da sociedade, procura alargar a sua base, remodelar as suas instituições de forma harmoniosa com as necessidades de um mundo em constante mudança. Ela não pode entrar em choque com nenhuma lealdade legítima, nem pode debilitar as lealdades essenciais. O seu propósito não é abafar a chama de um patriotismo inteligente e são nos corações dos homens, nem abolir o sistema de autonomia nacional tão essencial para evitar os males da centralização excessiva. Não ignora, nem tenta suprimir a diversidade de origens étnicas, de clima, de história, de língua e tradição, de pensamento e hábitos, que diferenciam os povos e as nações do mundo. Ela exige uma lealdade mais ampla, uma aspiração maior do que qualquer outra que tem animado a raça humana. Insiste na subordinação dos impulsos e interesses nacionais às necessárias exigências de um mundo unificado. Rejeita a centralização excessiva por um lado, e renuncia a todas as tentativas de uniformidade por outro. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pags. 41-42)
Mas como chegamos lá? Como construímos esse sentimento de patriotismo maior e mais inclusivo, que possa abranger todas as pessoas, em toda a parte? Sem a "centralização excessiva", que os ensinamentos Bahá’ís excluem, como podemos estabelecer um sistema de governação global que proteja os direitos de cada cidadão, mantendo a paz mundial e a estabilidade económica? Como podem as nossas estruturas governamentais servir verdadeiramente os interesses de cada ser humano?

Quando um congressista dos Estados Unidos colocou essa questão a 'Abdu'l-Bahá em 1912, Ele respondeu que o modelo americano de um sistema de estados federado poderia dar ao mundo um modelo valioso para a unificação:
Numa hora tão crítica na história da civilização, compete aos líderes de todas as nações do mundo, sejam grandes e pequenas, sejam do Oriente ou do Ocidente, vencedoras ou vencidas, prestar atenção ao aviso trombeta de Bahá'u'lláh e, completamente imbuídos com um sentido de solidariedade mundial, o sine qua non da lealdade à Sua Causa, levantarem-se para realizar na sua totalidade o esquema reparador que Ele, o Médico Divino, prescreveu para uma humanidade doente. Que rejeitem definitivamente todas as ideias preconcebidas, todos os preconceitos nacionais, e prestem atenção ao sublime conselho de 'Abdu'l-Bahá, o Intérprete autorizado dos Seus ensinamentos. Você pode servir melhor o seu país - foi a resposta de 'Abdu'l-Bahá a um alto funcionário do governo federal dos Estados Unidos da América, que o questionou sobre a melhor maneira como poderia promover os interesses do seu governo e povo - se se empenhar, na sua qualidade de cidadão do mundo, a ajudar na aplicação derradeira do princípio do federalismo subjacente ao governo do seu país nas relações agora existentes entre os povos e as nações do mundo. (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pag. 36-37)
Quem vive nos Estados Unidos, ou já os visitou, sabe como funciona o seu federalismo. Cada um dos cinquenta estados americanos tem fronteiras autónomas, governos eleitos democraticamente e o direito de seguir uma política estadual consoante os seus melhores interesses. Mas não têm direito de ir entrar em guerra contra outros, de manter exércitos estaduais ou de violar a lei nacional.

Muitos outros governos nacionais e até regionais funcionam hoje como democracias federalistas, entre elas a Índia, o Canadá, o México, o Brasil, a Austrália e agora a União Europeia com seus 28 países membros. Hoje em dia, muitas das nações mais bem-sucedidas do mundo funcionam dessa forma. Assim, já temos experiência em implementar o federalismo pleno num âmbito global, pois já fizemos isso ao nível nacional e internacional. Sabemos que funciona.

Os Bahá’ís acreditam que este tipo de federalismo, quando aplicado numa escala global, pode levar-nos pelo caminho de um planeta pacífico, harmonioso e próspero.

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Texto original: How Big Patriotism and Full Federalism Can Unite the World  (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Mistério da Páscoa e o Túmulo Vazio

Por David Langness.

Ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras… (Credo Niceno)

E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé… (1 Coríntios 15:17)
Quem viveu a infância numa cultura Cristã lembra-se da magia e do mistério da Páscoa - os ovos de Páscoa, o coelho da Páscoa, as cerimónias na igreja ao nascer do sol e principalmente o conceito misterioso do Cristo ressuscitado dos mortos após três dias no túmulo.

Este evento milagroso - a ressurreição de Cristo após a sua crucificação - enchia-me de admiração quando era criança. Aceitava isso tal como as crianças em qualquer lugar acreditam no que lhes dizem e maravilham-se com a sua fantástica improbabilidade. Mas à medida que crescia e aprendia um pouco sobre ciência e razão, comecei a questionar seriamente este milagre. Como é que alguém podia morrer, e voltar novamente a viver? Parecia impossível.

E nos meus doze anos, quando era um rapaz curioso e conflituoso, comecei num projecto pessoal de Páscoa. Fui à biblioteca e procurei livros. Pedi à minha amiga, a Sra. Weston, a simpática e amável bibliotecária da nossa pequena cidade, para me mostrar onde é que eu podia saber mais coisas sobre a Páscoa. Ela acedeu, e o que eu aprendi deixou-me espantado.

 Estátua de Astaroth /Astarte
A Páscoa, em resumo, começou por ser um feriado que celebrava a chegada da primavera, a fertilidade e o amanhecer, tudo exemplificado por Eostre, a grande deusa-mãe do povo saxão no norte da Inglaterra. O seu nome veio da palavra arcaica para primavera: eastre. Compreendi que em todo o mundo antigo, existiam deusas semelhantes para a primavera e a fecundidade, e que eram conhecidas por outros nomes: Afrodite, em Roma; Astaroth, no antigo Israel; Astarte da antiga Grécia; Hator no Egipto; Istar da Assíria; Kali da Índia; Ostara, a deusa nórdica da fertilidade; e Vesta das regiões eslavas.

Então, perguntei à Sra. Weston, como é que esse nome se tornou um dia santo cristão? Ela mostrou-me uma tradução de um livro intitulado Mitologia Alemã de Jacob Grimm - que eu conhecia porque eu tinha lido uma colectânea de mitos e contos populares que ele e o seu irmão tinham reunido. Isto era o que Jacob Grimm tinha a dizer sobre Eostre:
Ostara, Eástre parece, portanto, ter sido a divindade do amanhecer radiante, da luz emergente, um espectáculo que traz alegria e bênçãos, cujo significado poderia ser facilmente adaptado ao dia da ressurreição do Deus cristão. As fogueiras acendiam-se na Páscoa e, de acordo com a antiga crença popular, no momento em que o sol nascia na manhã de domingo de Páscoa, ela dava três saltos de alegria e dançava de felicidade... Esta Ostara na religião pagã, como a [anglo-saxónica] Eástre, devia simbolizar um ser superior, cuja adoração estava tão firmemente enraizada, que os mestres cristãos toleraram o nome e aplicaram-no a um de seus próprios mais grandiosos aniversários. (Deutsche Mythologie, 1835)
Por fim, descobri que quando a expansão do cristianismo da terra santa para o Ocidente, chegou aos povos anglo-saxões, os líderes da igreja simplesmente adaptaram o nome, os símbolos e as tradições das suas celebrações locais, a fim de deixar os cristãos convertidos mais confortáveis com a sua nova religião,

Aprender tudo isso fez-me rejeitar toda a ideia da Páscoa. Tal como uma criança que descobre a verdade sobre o Pai Natal, senti-me, de certa forma, enganado. Quando investiguei um pouco mais sobre o milagre da ressurreição de Cristo, comecei a suspeitar que a Igreja também tinha simplesmente adaptado e embelezado este conto, tornando o milagroso túmulo vazio de Cristo num artigo de fé, em vez de algo real.

Foi só quando me tornei Bahá’í, mais tarde na minha adolescência, que comecei a entender o verdadeiro significado da Páscoa:
A ressurreição da Manifestante de Deus não é do corpo. Tudo o que lhes diz respeito - todas as Suas situações e condições, tudo o que Eles fazem, estabelecem, ensinam, interpretam, ilustram e instruem - é de carácter místico e espiritual e não pertence ao reino da materialidade.

Esse é o caso do Cristo vindo do céu... uma vez que está estabelecido que Cristo veio do céu espiritual do Reino divino, o Seu desaparecimento na terra durante três dias também deve ter um significado místico em vez de literal. Da mesma maneira, a Sua ressurreição do seio da terra é um assunto místico e expressa uma condição espiritual e não material. E a Sua ascensão ao céu, da mesma forma, é espiritual e não de natureza material.

... Após o martírio de Cristo, os Apóstolos ficaram perplexos e assustados. A realidade de Cristo, que consiste nos Seus ensinamentos, nas Suas bênçãos, nas Suas perfeições e no Seu poder espiritual, ficou oculta e desapareceu durante dois ou três dias após o Seu martírio, e não teve aparecimento ou manifestação externa - de facto, era como se estivesse totalmente perdida. Pois aqueles que verdadeiramente acreditavam eram poucos em número, e mesmo esses estavam perplexos e assustados. A Causa de Cristo era, pois, como um corpo sem vida. Após três dias, os Apóstolos tornaram-se firmes e decididos, levantaram-se para ajudar a Causa de Cristo, resolveram promover os ensinamentos divinos e praticar os conselhos do seu Senhor, e esforçaram-se por servi-Lo. Então a realidade de Cristo tornou-se resplandecente, a Sua graça brilhou, a Sua religião encontrou uma nova vida, e os Seus ensinamentos e conselhos tornaram-se manifestos e visíveis. Por outras palavras, a Causa de Cristo, que era como um corpo sem vida, despertou para a vida e ficou rodeada pela graça do Espírito Santo.

Este é o significado da ressurreição de Cristo, e esta foi uma verdadeira ressurreição. Mas como o clero não entendeu o significado dos Evangelhos e não compreendeu esse mistério, tem sido afirmado que a religião se opõe à ciência, pois, entre outras coisas, a ascensão de Cristo num corpo físico aos céus materiais é contrária à Ciências matemáticas. Mas quando a verdade deste assunto é exposta e este símbolo é explicado, ela não está de modo algum em contradição com a ciência, mas antes, está confirmada pela ciência e pela razão. (Abdu'l-Baha, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 117-119)

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Texto original: The Mystery of Easter and Christ’s Empty Tomb (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 8 de abril de 2017

Compreender as forças que se opõem à Unidade Mundial

Por David Langness.



Será que, um dia, todos nós viveremos num mundo mais unido e globalizado - ou viveremos sempre num mundo dividido em nações isoladas?

Essa é a questão central no debate cada vez mais amplo e mais tenso globalismo e nacionalismo.

A história mostra-nos que a humanidade tende, ao longo do tempo, a organizar-se em sistemas cada vez mais abrangentes e mais amplos. E os Bahá’ís acreditam que é por isso que o nacionalismo já teve o seu apogeu. "O fetiche da soberania nacional absoluta", escreveu a Casa Universal de Justiça, "está a caminho da extinção".
Com cada nova crise nos assuntos mundiais, torna-se mais fácil para os cidadãos distinguir entre o amor pátrio que enriquece a vida das pessoas e a submissão à retórica inflamatória destinada a provocar o ódio e o medo dos outros. Mesmo quando é recomendável participar nos ritos nacionalistas tradicionais, a reacção pública é frequentemente marcada tanto por sentimentos de constrangimento como pelas fortes convicções e fácil entusiasmo de outros tempos. Este efeito tem sido reforçado pela reestruturação firmemente em curso na ordem internacional. Independente das limitações do sistema das Nações Unidas na sua actual configuração, e por muito limitada que seja a sua capacidade para desencadear uma acção militar colectiva contra a agressão, ninguém pode deixar de reconhecer o facto de que o fetiche da soberania nacional absoluta está a caminho da extinção. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, To the World’s Religious Leaders, p. 3)
Mas como poderia o nacionalismo - o paradigma político que dominou nos últimos séculos, e a causa dos maiores conflitos da humanidade - extinguir-se? O Guardião da Fé Bahá'í, Shoghi Effendi, explicou o arco da história humana e os seus sistemas evolutivos de organização desta maneira:
A unificação de toda a humanidade é a marca distintiva da etapa que a sociedade humana actualmente se aproxima. A unidade da família, da tribo, da cidade-estado e da nação foram sucessivamente tentadas e completamente conseguidas. A unidade do mundo é o objectivo para o qual a humanidade perturbada se encaminha. A construção das nações terminou. A anarquia inerente à soberania do Estado caminha em direcção a um clímax. Um mundo em amadurecimento deve abandonar esse fetiche, reconhecer a unidade e a integridade das relações humanas e estabelecer, de uma vez por todas, o mecanismo que melhor possa concretizar este princípio fundamental da sua vida. (The World Order of Bahá'u'lláh, p. 202)
Se olharmos cuidadosamente, podemos ver a unificação do mundo - a óbvia e inevitável próxima fase do desenvolvimento humano – manifestar-se em toda a parte. Aparece na tecnologia, no comércio, na medicina, nas relações internacionais, nas viagens, na compreensão cultural, na consciência ambiental e de mil outras maneiras. Nunca anteriormente a humanidade esteve tão profundamente ligada entre si.

Esta meta-tendência, porém, não deixa todos felizes.

De facto, o globalismo ameaça o domínio continuado do nacionalismo, e os nacionalistas têm desencadeado ardentes acções de bastidores para proteger as regalias e privilégios que acumularam sob o domínio nacionalista. Um analista nacionalista britânico, Frank Davis, afirma a propósito desse confronto:
Está a emergir um choque profundo entre a elite dos progressistas globalistas ricos e os conservadores nacionalistas menos ricos. É um choque de ideais e realidades. É um choque tão profundo quanto o confronto no século passado entre o socialismo utópico e o capitalismo. Se ainda não é uma guerra, com certeza parece preparado para o ser em breve.
Percebem o preconceito aqui? Ele chama "ricos" e "elite" aos globalistas, as palavras-tipo para autocratas distantes da realidade. No entanto, a maioria das pessoas que quer ver mais unidade no mundo não se enquadra nessa definição - de facto, muitas pesquisas mundiais mostraram que a grande maioria das pessoas nos países pobres e subdesenvolvidos apoia um sistema forte de governação global. Os nacionalistas, segundo os mesmos estudos, tendem a vir dos países mais ricos, mais desenvolvidos, chamados do "primeiro mundo", e muitas vezes vêem o seu nacionalismo como uma forma de proteger o seu domínio, as suas fortunas e as suas posições de poder.

Assim, podemos concluir - com segurança - que a questão central do debate globalismo-nacionalismo gira em torno da riqueza e do poder, como tantas outras questões sobre governação. Quando as unidades tribais se organizaram pela primeira vez em cidades-estado, e quando as cidades-estados se tornaram primeiramente nações, os povos também lutaram para defender o modelo do passado. Os governantes e os poderosos na ordem política existente tentaram derrotar o novo paradigma e lutaram duramente contra a sua perda de influência; mas, por fim, perderam. O historiador Arnold Toynbee descreve assim o processo:
A última etapa de cada civilização é caracterizada pela unificação política forçada das suas partes constituintes, num todo maior.

O século XX será lembrado principalmente pelas gerações futuras, não como uma era de conflitos políticos ou invenções técnicas, mas como uma era na qual a sociedade humana ousou pensar no bem-estar de toda a raça humana como um objectivo prático.
É por isso que os ensinamentos Bahá’ís nos lembram que todo movimento progressista em direcção a um mundo mais pacífico e mais unido enfrenta um forte antagonismo. As seguintes palavras de Shoghi Effendi, escritas na década de 1930, reflectem sobre o impulso idealista da época sobre a unidade na Europa e a forma de conter os piores horrores da Primeira Guerra Mundial com a Convenção de Genebra:
A feroz oposição com que foi recebido prematuro esquema do Protocolo de Genebra; o ridículo lançado sobre a proposta de uns Estados Unidos da Europa que foi posteriormente avançada e o fracasso do esquema geral de união económica da Europa, podem parecer como contratempos nos esforços que um pequeno grupo de pessoas visionárias exercem diligentemente para fazer avançar este nobre ideal. E, no entanto, não estamos justificados ao obter novos encorajamentos quando observamos que a própria consideração dessas propostas é em si uma evidência do seu crescimento constante nas mentes e nos corações dos homens? Nas tentativas organizadas que estão a ser feitas para desacreditar um conceito tão exaltado não estamos a testemunhar a repetição, em maior escala, daqueles combates agitados e controvérsias ferozes que precederam o nascimento e ajudaram a reconstrução, das nações unificadas do Ocidente? (Shoghi Effendi, The World Order of Baha’u’llah, pags. 44-45)
Quando os ensinamentos Bahá'ís aludem, como fazem aqui, às "nações unificadas do Ocidente", o que significa isso? No próximo artigo desta série, tentaremos responder a essa pergunta examinando a formação dos Estados Unidos da América. Talvez lhe surpreenda o que as escrituras Bahá'ís têm a dizer sobre o sistema federal dos cinquenta Estados dos Estados Unidos, e como este serve de modelo para a unificação das nações.

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Texto original: Understanding the Forces that Oppose Global Unity (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 1 de abril de 2017

Globalismo ou Nacionalismo?

Por David Langness.


O leitor considera-se globalista ou nacionalista? Se não tem a certeza, faça este pequeno teste para descobrir:
1. O que pensa sobre as fronteiras nacionais? Devem ser: 
     a) Seladas, policiadas e geralmente impenetráveis?
     b) Desvalorizadas e mais facilmente atravessadas?  
2. Se você decidiu colocar uma bandeira em sua casa, escolheria: 
     a) A bandeira do seu país?
     b) Uma bandeira com uma foto da Terra vista do espaço? 
3. Você pensa em si próprio como um cidadão: 
     a) Da nação em que você vive?
     b) Do mundo?
Muito óbvio, não é? Se escolheu a resposta "a)" para estas três perguntas, você é provavelmente um nacionalista; e se você respondeu "b)" você é provavelmente um globalista. Todas essas perguntas basicamente se resumem a um centro emocional: o que você ama mais e a quem se sente mais leal: ao seu país ou à Terra?

Mas antes de irmos mais longe com este tipo de classificação, vamos definir as nossas palavras - ou pelo menos deixar que o Dicionário faça isso por nós:
Nacionalismo: devoção à nação a que se pertence; patriotismo;  
Globalismo: uma política ou perspectivas que sejam de âmbito mundial;
Parece simples, não é? Bem, pode parecer simples, mas a escolha tão diferenciada entre o nacionalismo e o globalismo transformou-se ultimamente num ponto de grande confronto na complexa vida política do nosso planeta. Em muitos, ou mesmo na maioria dos países do mundo, desenrola-se um debate feroz: devemos fazer o que é melhor para o nosso país, ou o que é melhor para o mundo? Devemos preocupar-nos mais com os cidadãos da nossa própria nação, ou com todos, independentemente de onde eles tenham nascido? Devemos privilegiar aqueles que são nossos compatriotas, ou devemos desvalorizar a cidadania nacional a favor de uma visão mais inclusiva de todas as pessoas como cidadãos do mundo? Devemos manter as nossas identidades nacionais - como espanhóis, russos, brasileiros, liberianos, americanos - ou devemos adoptar uma identidade global mais universal que transcenda as nossas origens puramente nacionais?

Eleições, opções políticas, enormes despesas económicas e a vida de milhares de milhões de pessoas dependem hoje destas questões fundamentais. As crises dos refugiados, as crises ambientais e mesmo as crises nas relações entre países dependem da forma como respondemos a estas questões.

Forças tremendas actuam no mundo em defesa de cada posição. As forças nacionalistas ainda dominam as estruturas políticas planetárias e as chamadas nações "desenvolvidas" - os países mais prósperos, geralmente denominados o “Norte global”, dominam as nações mais pobres e "subdesenvolvidas", chamadas de “países do Sul”. Os países do Norte global - Estados Unidos, Japão, União Europeia e Rússia, entre outras - tendem a possuir mais riqueza, mais poder e mais influência. Os países do sul - Índia, Indonésia, a maioria dos países sul-americanos e africanos - tendem a ter menos riqueza, menos poder e menos influência, embora tenham mais população do que os países desenvolvidos.

As forças globalistas, porém, são um desafio cada vez maior para os pontos de vista nacionalistas tradicionais. Porque o mundo transformou-se durante o século passado; passámos de um vasto planeta para uma aldeia; porque as relações sociais entre os povos da Terra atravessam cada vez mais as fronteiras nacionais; porque as viagens, transportes, comunicações e a difusão de ideias e valores através da internet e da cultura popular global têm aumentado exponencialmente; os conceitos puramente nacionalistas de cidadania, patriotismo e lealdade absoluta a um único país começaram a decair.

Os Bahá’ís acreditam que estas mudanças globais titânicas assinalam um grande ponto de viragem na história humana. Agora, neste século, estamos no meio de uma alteração fundamental na forma como nos vemos a nós próprios e ao mundo - e essa alteração terá um enorme impacto no futuro da raça humana.

Toda a humanidade, dizem os ensinamentos Bahá’ís, deve unificar-se sob uma única bandeira - a bandeira da unidade global:
Desejamos apenas o bem do mundo e a felicidade das nações... Que todas as nações se tornem uma na fé e todos os homens sejam irmãos; que os laços de afecto e de unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos... Porém, assim será; estes conflitos infrutíferos, estas guerras ruinosas passarão, e a "Grande Paz" virá... Contudo, vemos os vossos reis e governantes esbanjando os seus tesouros mais em meios de destruição da raça humana do que naquilo que conduziria à felicidade da humanidade... Essas contendas, este derramamento de sangue e discórdia devem cessar, e todos os homens devem ser como uma grande família... Que o homem não se glorifique porque ama o seu país; que se glorifique porque ama a sua espécie... (Bahá'u'lláh, The Proclamation of Baha’u’llah, p. 1)
Assim, nesta série de artigos, vamos examinar o confronto actual entre nacionalismo e globalismo, e explorar os ensinamentos Bahá’ís sobre o assunto. Examinaremos o que os ensinamentos Bahá'ís prevêem para um mundo unificado e pós-nacionalista e veremos o que significam quando defendem a unidade de todas as nações sob um sistema de governação global. Acima de tudo, vamos elucidar os motivos pelos quais se deve privilegiar o amor à humanidade sobre o amor à pátria, e porque é que o futuro da Terra depende de nos assumirmos todos como globalistas.

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Texto original: Are You a Globalist or a Nationalist? Take the Quiz! (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sexta-feira, 31 de março de 2017

EUA: Residência de Bahá’í vandalizada com mensagens anti-Islão

Após uma breve ausência de 3 dias, um Bahá’í iraniano residente nos EUA encontrou a sua casa vandalizada com frases pintadas com ameaças e mensagens anti-Islão. Além disto encontrou uma carta que o ameaçava de morte e vários cartuchos de munições colocados na forma de cruz.

Aparentemente, os autores deste crime terão pensado que o Sr. Hasel Afshar era muçulmano. Mas o Sr. Asfar é Bahá’í. O Sr. Afshar nasceu no Irão e vive nos EUA como refugiado desde 2010. Vive e trabalha na cidade de Troutdale, no Oregon.

“Acredito que os EUA são um grande país. Mas não sei; há muita gente racista”, afirmou o Sr. Asfar. Vários vizinhos ficaram revoltados com o sucedido e ofereceram-se para limpar e arranjar a casa.

A polícia local está a investigar o caso e considerou que as inscrições na casa do sr. Asfar eram um crime de intimidação. O FBI também está envolvido na investigação.

O presidente do Município descreveu o caso com um “ataque horrível” e acrescentou que a cidade e a polícia estão a fazer todos os esforços para identificar os responsáveis. “Ninguém deveria experimentar o medo de ser atacado devido à sua identidade ou prática da sua religião. Lamento que esta violência tenha penetrado na nossa comunidade, e saliento a importância de trabalhar para criar mais ligações e compaixão entre as nossas comunidades, acrescentou.

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FONTES:
Bias crime targets Troutdale homeowner
Hate graffiti sprayed in home of Iran refugee
Man's home ransacked, spray-painted with death threats and anti-Muslim graffiti

sábado, 25 de março de 2017

A Tolerância Religiosa é suficiente?

Por David Langness.


Você já ouviu este conselho: vivemos num mundo religioso diversificado; por isso, precisamos de tolerância. Mas a tolerância será suficiente?

Para saber, vamos ver a definição da palavra no dicionário:
Tolerância: acto de admitir sem reacção agressiva ou defensiva; atitude que consiste em deixar aos outros a liberdade de exprimirem opiniões divergentes e de actuarem em conformidade com tais opiniões; aceitação; possibilidade que se dá a cada um de praticar a religião que professa.
Parece inofensivo, certo? Afinal, porque não haveríamos de tolerar as crenças dos outros? Bem, para entender o que realmente significa a tolerância, podemos olhar para a origem desta palavra, que vem do latim tolerare, que significa "suportar":
Tolerar: suportar (coisa desagradável); aceitar, admitir ou consentir (algo com que não se concorda); aceitar e conviver com (a diferença de ideias, de comportamentos, etc.) sem se sentir ameaçado
Deste modo, a tolerância religiosa pode significar ignorar e continuar a não gostar das outras religiões e dos seus seguidores, enquanto se suporta a sua existência. Não é uma maneira muito apelativa para nos relacionarmos com os outros, pois não?

Diana Eck, do Harvard Pluralism Center, tem a seguinte opinião sobre a tolerância religiosa:
... o pluralismo não é apenas tolerância, mas a busca activa da compreensão através das linhas de diferença. A tolerância é uma virtude pública necessária, mas não exige que Cristãos e Muçulmanos, Hindus, Judeus e secularistas fervorosos se conheçam uns aos outros. A tolerância é uma base muito frágil para um mundo de diferença e proximidade religiosa. Não faz nada para remover a nossa ignorância sobre os outros, permitindo a criação de estereótipos, meias-verdades e medos que subjacentes velhos padrões de divisão e violência. No mundo em que vivemos hoje, a nossa ignorância sobre os outros terá um custo cada vez maior.
Certamente que quando existe muita diversidade religiosa, e se simplesmente nos toleramos uns aos outros, isso pode parecer uma espécie de paz, amor e compreensão - à distância. Mas visto mais de perto, isso muitas vezes significa que criamos guetos religiosos, com linhas de separação rígidas que nos dividem imediatamente. Isso significa que realmente não conseguimos grande coisa na forma como compreendemos e construímos pontes reais entre religiões.

Quer testar pessoalmente esta ideia? Pergunte a si próprio: Quando foi a última vez que estive com uma pessoa ou um grupo de pessoas pertencentes a um sistema de crença totalmente diferente do meu?

Albaneses em fuga, no Kosovo, 1999.
No mundo moderno, temos muitos, muitos exemplos deste tipo de segregação religiosa. Quando o Kosovo se desintegrou há menos de duas décadas, por exemplo, imediatamente se dividiu de acordo com linhas religiosas - sérvios "Cristãos" contra albaneses "Muçulmanos". Apesar dos dois grupos religiosos terem vivido lado a lado na mesma sociedade durante muitos anos e terem conseguido um relacionamento relativamente pacífico, alguns fanáticos e déspotas, instalados em posições de liderança no governo e entre os militares, conseguiram rapidamente trazer as antigas divisões de volta à superfície e começar uma guerra genocida. Na África, no Médio Oriente e em muitos outros lugares do mundo de hoje, vemos acontecer os mesmos problemas.

Portanto, se membros de diferentes confissões religiosas quiserem encontrar-se para dialogar, falar das suas diferentes crenças e resolver os seus conflitos, precisarão de definir um terreno comum.

Como fazemos isso? Primeiro, com o conhecimento.

O que é que você sabe sobre os seus vizinhos budistas ou hindus ou muçulmanos - e sobre as suas crenças? Você já passou algum tempo investigando as outras religiões além da sua? Alguma vez foi a um culto de adoração ou reunião de outra Fé? Alguma vez leu algum livro sobre as outras religiões, ou sabe apenas aquilo que os meios de comunicação lhe dizem? Você tem relações de amizade frutíferas com alguém fora dos seus grupos familiares, culturais ou religiosos?

Adquirir conhecimentos sobre outras crenças não é difícil - agora, mais do que em qualquer outro momento da história, todos nós temos acesso a uma enorme riqueza de conhecimento sobre as outras religiões e crenças. Esse rico repositório de conhecimento - em escolas, bibliotecas, casas de culto, grupos comunitários e meios on-line - significa que não temos desculpas para continuar ignorantes em relação à religião.

Os ensinamentos Bahá’ís pedem a cada um de nós que se torne um "investigador da realidade" explorando activamente e aprendendo sobre as crenças dos outros:
Bahá'u'lláh incita continuamente o homem a libertar-se das superstições e tradições do passado e a tornar-se um investigador da realidade, pois assim verá que Deus revelou a Sua luz muitas vezes para iluminar a humanidade no caminho da evolução, em vários países e através de muitos e diferentes profetas, mestres e sábios. ('Abdu'l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 8-9)
Qual é a única forma de ir além da simples tolerância? Para transcender a mera tolerância, é necessário o conhecimento:
... a religião de Deus é a promotora da verdade, a criadora da ciência e da aprendizagem, a defensora do conhecimento, a civilizadora da raça humana, a descobridora dos segredos da existência e a iluminadora dos horizontes do mundo. ... aos olhos de Deus o conhecimento é a maior virtude humana e a mais nobre perfeição humana. ... Pois o conhecimento é luz, vida, felicidade, perfeição e beleza, e faz com que a alma se aproxime do limiar divino. É a honra e glória do reino humano e a maior das dádivas de Deus. O conhecimento é idêntico à orientação, e a ignorância é a essência do erro.

Felizes os que passam os seus dias na busca do conhecimento, na descoberta dos segredos do universo e na meticulosa investigação da verdade! ('Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 154-155)
Quando se começa a adquirir algum conhecimento sobre os sistemas de crenças do mundo, percebemos - tal como os ensinamentos Bahá'ís sugerem - que o conhecimento é luz, vida, felicidade, perfeição e beleza.

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Texto original: Why Religious Tolerance Isn’t Enough (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 18 de março de 2017

Pode a Religião renunciar à Exclusividade e à Finalidade?

Por David Langness.


Para dar o salto do pluralismo religioso para a unicidade, cada uma das grandes religiões do mundo deve renunciar às suas pretensões de exclusividade e finalidade.

Aquelas pretensões de acesso privilegiado e absoluto à verdade - do tipo "somos o único caminho para Deus" ou "somos a palavra final e absoluta de Deus" - criaram alguns dos mais amargos conflitos entre os povos da Terra. As religiões que insistem na finalidade ou na exclusividade têm causado incontáveis mortes e tragédias como resultado dessas pretensões sectárias, opondo-se a outras religiões, governos ou povos, e criando ódio em vez de harmonia:
Vimos que aquilo que traz divisão no mundo da existência causa a morte. De igual modo, no mundo do espírito, opera a mesma lei. Portanto, cada servo do Deus Único deve ser obediente à lei do amor, evitando todo o ódio, a discórdia e o conflito. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, pp. 139-140)
Os ensinamentos Bahá’ís, que sempre renunciaram ao carácter destrutivo dessas pretensões, afirmam que estas não surgiram originalmente com os Profetas e Mensageiros que fundaram cada Religião, mas com as interpretações posteriores influenciadas pelo poder do clero de cada tradição. Além disso, os seguidores das religiões têm muitas vezes permitido que uma devoção excessivamente zelosa aos seus fundadores os leve a acreditar que a sua fé particular é a palavra final ou exclusiva de Deus, e seguidamente negam a possibilidade de aparecimento de qualquer religião posterior.

Ironicamente, os fundadores das grandes Religiões mundiais não reivindicaram exclusividade ou finalidade para seus ensinamentos; em vez disso, todos eles reconheceram as Religiões que tinham aparecido anteriormente e anunciaram futuras Religiões. Toda a religião tem profecias que prometem novos profetas, e toda religião se baseia também nas suas predecessoras. Todas as religiões aguardam o reaparecimento dos seus Mensageiros, porque todos os Mensageiros prometeram regressar.

É por isso que os Bahá’ís não reivindicam finalidade, exclusividade ou superioridade para a sua Fé; e é por isso que Bahá'u'lláh - o profeta e fundador da Fé Bahá'í - exorta a humanidade à unidade:
Não pode haver dúvida alguma de que os povos do mundo, de qualquer raça ou religião que sejam, derivam a sua inspiração de uma única Fonte Celestial e são súbditos de um único Deus. A diferença entre os preceitos sob os quais vivem deve ser atribuída aos diversos requisitos e exigências da época em que foram reveladas. Todas elas, exceptuando-se apenas umas poucas que são o resultado da perversidade humana, foram decretadas por Deus e são um reflexo da Sua Vontade e do Seu Propósito. Levantai-vos e, armados com o poder da fé, despedaçai os deuses das vossas imaginações vãs, os semeadores da dissensão entre vós. Apegai-vos àquilo que vos aproxima e vos une. (SEB, CXI)
Em 2002, a Casa Universal de Justiça - o corpo eleito democrática e globalmente, que administra a Fé Bahá'í - enviou uma declaração sobre este importante assunto aos líderes religiosos do mundo de todas as Fés. A declaração reflectiu sobre o apelo de Bahá'u'lláh, acima citado, e concluía pedindo a todas as religiões que renunciem às suas reivindicações de exclusividade ou finalidade:
Tal apelo não exige o abandono da fé nas verdades fundamentais de qualquer um dos grandes sistemas de crenças do mundo. Bem pelo contrário. A fé tem o seu próprio imperativo e é a sua própria justificação. O que os outros acreditam - ou não acreditam - não pode ser a autoridade em qualquer consciência individual digna do nome. O que as palavras acima instam inequivocamente é à renúncia a todas as pretensões de exclusividade ou finalidade que, ao envolver as suas raízes em torno da vida do espírito, se tornaram o principal factor na sufocação dos impulsos à unidade e na promoção do ódio e da violência. (A Casa Universal da Justiça, Abril de 2002, Aos Líderes Religiosos do Mundo)
Este urgente apelo Bahá’í aos líderes das Religiões do mundo vai muito além da mera tolerância religiosa, diversidade ou pluralismo. Vai ao coração da nossa compreensão de Deus. Desafia todos os líderes religiosos a compreender mais profundamente a verdade das suas próprias crenças, a considerar o futuro do mundo nesse contexto e, finalmente, a reconhecer e agir segundo a promessa básica de toda a religião - a promessa de Deus de trazer a paz e a unidade à humanidade:
Que o fanatismo e a intolerância religiosa sejam desconhecidos, que toda a humanidade adira ao vínculo da fraternidade, que as almas se associem em perfeito acordo, que as nações da terra hasteiem o estandarte da verdade e as religiões do mundo entrem no templo divino da unicidade, pois as fundações das religiões celestiais são uma realidade única. A realidade não é divisível; ela não admite a multiplicidade. Todos os Santos Manifestantes de Deus proclamaram e promulgaram a mesma realidade. Convocaram a humanidade para a própria realidade, e a realidade é uma só. As nuvens e as brumas das imitações obscureceram o Sol da Verdade. Devemos abandonar essas imitações, dissipar essas nuvens e brumas e libertar o Sol das trevas da superstição. Então o Sol da Verdade brilhará mais gloriosamente; todos os habitantes do mundo estarão unidos, as religiões serão uma só; seitas e denominações reconciliar-se-ão; todas as nacionalidades fluirão para o reconhecimento de uma única Paternidade e todos os níveis da humanidade se reunirão ao abrigo do mesmo tabernáculo, sob o mesmo estandarte. (’Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 95-96)

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Texto original: Can Religion Renounce its Claims to Exclusivity and Finality? (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Podemos esperar um futuro pluralista e inter-religioso?

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.